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Crônicas de um Sol Nascente

E a neve cai!

Há alguns dias, postei nas redes sociais uma foto, tirada da janela de meu apartamento, que mostrava o exato momento em que a neve começava a cair em Saitama, cidade japonesa onde resido. Era seis de janeiro, e após um calor fora do comum em dezembro, já não tínhamos esperança alguma de que fosse nevar no início de 2022. Mas a “chuva branca” veio... e forte! 

Já em relação à postagem que fiz registrando a ocasião, foi interessante ver a reação de meus amigos no Brasil, com frases do tipo: “que lindo”, “maravilhoso” etc... Reações naturais, aliás, pois a visão daquele tapete alvo cobrindo a cidade de fato tende a aguçar a imaginação de todos nós, filhos de um país tropical. Temos até, eu diria, um certo fascínio pela neve, chegando mesmo a associá-la ao grau de desenvolvimento de uma nação – “coisa de primeiro mundo”, dizemos, como se a neve despencasse inversamente proporcional à bolsa de valores.

O irônico é verificar que eles, os ricos “filhos da neve” – leia-se: norte da Europa, Canadá, Estados Unidos e Japão –, preferem justamente o oposto ao frio que vivenciam em boa parte do ano. Por exemplo, muitos colegas ingleses e americanos que aqui tenho sempre me perguntam, com um brilho nos olhos, como são as praias brasileiras. E eu sempre respondo que não sei, pois nasci e cresci na Amazônia (nessa parte, vale frisar, eles costumam olhar-me como se eu fosse o Tarzan, o Mogli ou algo do tipo). Ou seja, eles realmente nos veem como habitantes privilegiados de uma espécie de paraíso na terra: onde reinam sempre o sol, a praia e a folia...

Escrevi tudo isso para dizer que é intrigante essa permanente insatisfação humana. É aquela velha história de que “a grama do vizinho parece mais verde”. O que me leva à conclusão de que é mesmo inerente à natureza humana o vício do “queixume” em relação à vida que possui. 

Continuaremos nos queixando em 2022? É muito provável que sim. Seguiremos achando sempre que os dissabores pesam na balança da vida mais do que as alegrias? Não tenho a menor dúvida disso. Principalmente se não paramos com essa mania de achar que a grama do outro é mais bonita, esquecendo-nos de cuidar melhor e dar valor à grama que é nossa.

De minha parte, em 2022, continuarei a fazer o que sempre fiz: admirando e sabendo aplaudir a quem faz (desde que de modo honesto!) mais verde a sua grama; porém, sem me esquecer de valorizar e trabalhar a minha. Pois, faça sol ou caia neve, é ao meu pedacinho de verde que tenho de dar valor primeiro.

Um feliz 2022 a todos! 

***
EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo que, em 2022, lançará mais um, agora pela Editora Folheando (Pará). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases). 

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