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Crônicas de um Sol Nascente

DISTANCIAMENTO

Se há dois termos que definem o ano de 2020, estes são: “coronavírus” e “distanciamento social”. Sobre o vírus, não restam dúvidas sobre a carga negativa do termo – afinal, as imagens aterrorizantes da pandemia estão aí para comprovar que a  Covid-19 está longe de ser uma “gripezinha”, como disseram no início alguns incautos. Já em relação ao distanciamento social, este nem sempre é visto como algo nocivo – havendo até quem curta a ideia de afastar-se o máximo possível dos outros. No caso do Japão, aliás, o distanciamento chega a ser mesmo uma prática cultural: e isso não é de hoje.

Foi Aristóteles quem disse que “o homem é por natureza um animal social”. Bom, certamente o filósofo grego, ao proferir tal frase, não tinha em mente os reservados japoneses. Parece exagero? Então experimente dizer um “ohayou” (um bom-dia) para o seu vizinho em um elevador no Japão. Ou o “ohayou” da outra parte será quase inaudível, ou não haverá qualquer resposta (sendo a segunda hipótese a mais provável) – e, em seguida, o vizinho sairá do elevador às pressas como se tivesse visto uma assombração.

Claro que, felizmente, nesta vida, para toda regra há exceções: existindo, portanto, filhos do Sol Nascente que respondem ao cumprimento dos demais mortais. Mas, repito, são exceções. A maior parte dos japoneses preferirá um harakiri a ter de interagir com alguém fora de seu círculo social – e não importa que seja um vizinho.

É óbvio também que esse comportamento antissocial tem uma explicação plausível, que é o conhecido caráter tímido dos japoneses. No início, brasileiramente, confesso que a saudação sem resposta até me irritava. Hoje, morando no país há quase vinte anos, posso dizer que estou anestesiado. De modo que, se tenho um “ohayou” não respondido, dou de ombros e sigo o meu caminho (e, atualmente, vale frisar, ficou até mais fácil sair de tais situações embaraçosas, uma vez que a máscara cirúrgica pode também ser utilizada para esconder um sorriso constrangido – que o diga o ministro Paulo Guedes).

Por outro lado, sempre que recebo esse tácito “não” a minha tentativa de comunicação, fico me fazendo as seguintes indagações: “Será que é somente no Japão que isso ocorre?”; “Ou é o mundo inteiro que está menos comunicativo, e a diferença é apenas que algumas culturas expressam isso de modo mais evidente?”. E a conclusão a que chego é sempre a mesma: “Não, esse desejo de incomunicabilidade é cada vez mais um triste fenômeno mundial”.

E uso o adjetivo “triste” porque acredito que o mundo, dessa forma, não pode estar caminhando bem. A frase de Aristóteles deveria representar um comportamento humano NATURAL. E não esse distanciamento, muitas vezes camuflado de “interações virtuais”, que há décadas temos vivido: achando que um computador é o paraíso das relações ideais, enquanto que, no mundo real, sequer damos um bom-dia ao nosso vizinho.

Talvez o coronavírus tenha vindo para nos mostrar que já vivíamos uma outra pandemia: a da insensibilidade. A boa notícia é que, para esta doença, a cura pode ser simples. Basta uma dose de amor.

 

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (AmazonasBrasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases). Em maio de 2020, foi um dos escritores premiados no Concurso “Crônicas de Quarentena”, do Clube de Autores.

 

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