O dia amanhecera cinza. Havia o prenúncio de tragédia no ar. A vida há muito já se tornara ela mesma uma tragédia. Viver e conformar-se ao mundo e às pessoas, afinal, sempre fora para ele um exercício extremamente difícil e cansativo.
Cumprimentar o vizinho, sair com o cachorro para passear, preparar a própria comida, tratar de dar um jeito na casa, logo ele que sempre, desde mocinho, sempre fora um exímio bagunceiro. Difícil era quando alguém ousava “arrumar” essa sua bagunça. Não conseguia encontrar nada. Na sua bagunça, ali no seu universo particular e particularmente caótico, ele sabia onde encontrar quase tudo de que precisava. Quase tudo.
Há tempos que já não encontrava nenhuma paz, nenhuma vontade de permanecer apenas repetindo os gestos cotidianos, já sem significado algum. Desde que ela fora embora, levada pro céu por algum desígnio insondável daquele que chamamos de Altíssimo, todo o significado de estar e permanecer vivo parece que lhe havia fugido.
Restara a cachorrinha, já tão velhinha quanto ele, e pareceme mesmo que era ela o motivo que justificava sua permanência nesse mundo. Aqueles olhinhos amendoados, cansados, mas ainda assim dispostos a continuar fitando-o com ternura talvez fossem mesmo a razão de evitar desistir.
Desistir é mesmo uma palavra estranha, ele achava muitas palavras estranhas, ao que ela ria. Ela era uma apaixonada pelas palavras e por ele, apesar de toda sua implicância com determinadas palavras, que quase sempre era suprimida pelo enorme amor e admiração que sentiam um pelo outro.
Não tiveram filhos humanos, como costumavam dizer. Clara era então a síntese do amor do casal, que ainda muito jovem decidira-se por compartilhar a vida.
A vida sem ela era um fardo pesado demais...
Por isso talvez, naquela manhã cinza e tétrica, depois de fazer o café forte e com pouco açúcar, como ela gostava, esqueceu-se de não tê-la maisali, colocou na mesa duas xícaras, as mais bonitas, de uma porcelana tão delicada quanto devia estar agora a pele adorada da mulher muito amada. Trazia pinturas suaves, de hortênsias azuis como os olhos dela...
A mão trazia o tremor da idade, deixou a xícara cair. Logo aquela de que ela gostava tanto. Lamentou-se tanto e tão profundamente, que de novo, esqueceu-se de que ela não mais estava ali, e serviu outra xícara rapidamente, temeroso de fazêla esperar demais a ponto de o café esfriar.
A vida não pode esperar, pensou ele. Tê-la era o que de mais precioso ele tivera em sua existência. Sendo assim, tomaram o café juntos, ela rindo de seu amadorismo para servir à mesa, ele sorrindo a ela o sorriso que só aqueles que se amam verdadeiramente podem oferecer ao outro. E havia tanta cumplicidade naquela mesa, que a conversa se alastrou por toda a manhã. Até que ele se cansou, e afastando a xícara, debruçou-se sobre a mesa. Podia ainda sentir as mãos dela acalentando seu sono, num cafuné.
Dormiu o melhor sono de sua vida. Deixou a vida naquela manhã. Finalmente sentiu-se novamente feliz, estava com ela, estava em paz.
Clara presenciou todo o encanto dessa cena. Foi ela quem corajosamente latiu avisando os vizinhos do acontecido. Inconsciente, avisara que seu dono partira, quando de fato, ele apenas retornara. Em sua inocência canina, ela não podia compreender que a morte é apenas uma palavra, uma palavra estranha por demais...
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