Em virtude da reconhecida capacidade de organização do povo japonês, é comum o pensamento de que os preparativos em Tóquio para os Jogos Olímpicos já estão a todo vapor. E isso ocorre principalmente porque há uma tendência equivocada de comparar-se as expectativas para o evento de 2020 com as falhas de edições anteriores – edições estas que, na verdade, foram realizadas sem grandes incidentes, apesar da histórica dificuldade financeira de países como o Brasil e a Grécia. Mas o fato é que, também no caso da capital japonesa, nem tudo está sendo um “mar de rosas” nos preparativos; uma vez que os desafios existem, sim, e são gigantescos: especialmente no quesito “comunicação”.
E o problema começa já nas estações ferroviárias; considerando-se que os trens e os metrôs serão os principais meios de locomoção para os turistas durante os jogos. Faço parte de uma equipe de professores que está lecionando Inglês para os trabalhadores das estações, e posso afirmar que, apesar do sincero esforço de meus alunos (e mesmo um relativo progresso), muito ainda há de se fazer, dado o curto tempo que resta até a abertura dos jogos. E não é que esses dedicados alunos desconheçam completamente o idioma de Shakespeare. Eles sabem, sim, os verbos e substantivos básicos. O problema é que, na hora de elaborar uma frase, o nervosismo não deixa: especialmente quando estão perante um estrangeiro. Aí, para não entrarem em pânico total, alguns até se bloqueiam: fingindo não entender uma palavra sequer. É o famoso “zenzen wakaranai” (Ou: “Não entendo nada!”). Lembrem-se, portanto, dessa frase quando vierem para os jogos, pois poderão escutá-la em algum momento da jornada pela “Terra do Sol Nascente”.
Tal problema de comunicação, espera-se, será amenizado em agosto. Principalmente porque há um real esforço das equipes do sistema ferroviário local, por exemplo, para colocar avisos em inglês dentro dos veículos e nas plataformas das estações. Mas não se iludam, pois, em caso de acidentes (e eles não são raros), a informação fica bem mais complicada: o turista olhará para as placas eletrônicas, em busca de uma direção ou esclarecimento, e provavelmente verá um amontoado de kanjis (letras dos alfabetos chinês e japonês) antes de vislumbrar uma palavra em inglês, e esta ainda com um sentido vago. E aí, nobres leitores, é torcer para que, nessa hora, os trabalhadores da estação estejam com os nervos no lugar e o inglês em dia...
Isso sem falar que muitas das estações de metrô em Tóquio são de uma estrutura antiga e complicada: dificultando a locomoção em seu interior para poder-se encontrar a plataforma e o trem certos. Para terem uma ideia, até recentemente – pasmem! – algumas dessas estações (como a de Naka-okachimachi) sequer possuíam elevadores: um verdadeiro inferno, por exemplo, para as gestantes.
Sim, caros leitores, desafios existem também nas Olimpíadas japonesas. Se irão se resolver a tempo? Torço, sinceramente, que sim. Caso contrário, teremos que acrescentar uma nova modalidade para os turistas: a da “prova do labirinto”.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto espaço” (2012), “No mínimo, o infinito” (2013), “Filho da floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases). Em novembro de 2019, foi o vencedor, na Espanha, do 13º Concurso de Microcontos do Festival de Cine Terror de Molins.
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