Desde criança, ouvi de minha mãe que o que é do outro é do outro. Jamais devemos pegar aquilo que não nos pertence. E isso servia pra tudo, desde uma borracha até uma carteira com dinheiro.
Se eu chegasse com um lápis a mais no meu estojo escolar, que obviamente, não fosse meu, eu sabia que seria inquirida a respeito. É isso, é o que é justo, correto.
Eu cresci assim, e até hoje não consigo admitir a ideia de que alguém se aproprie de algo que pertence ao seu semelhante. E talvez seja essa uma das razões por que o Brasil me frustra tanto.
Viemos de uma colonização ladra, estupradora, usurpadora. Tivemos nossas riquezas naturais e humanas saqueadas pelos portugueses. Mas ao que parece, não aprendemos lição alguma.
Até hoje, há quem se beneficie do direito do outro, do lugar do outro. E eu devia já estar, como muitos estão, acostumada a assistir a essas demonstrações de falta de caráter, no entanto, ainda me revolto com elas.
Estamos ainda em meio a uma pandemia sem precedentes. Já passamos de duzentas mil mortes em função dela. Duzentas mil pessoas, você compreende o que significa esse número? Sim, porque temos a tendência de romantizar os números ou, ainda, de banalizar a vida humana, quando a limitamos a números.
Números não sentem, não têm família, não sofrem, nem causam sofrimento a outros. As famílias enlutadas pela Covid-19 não esperam um número para o jantar, com a mesa posta como antigamente, nem esperam que um número cumpra o papel de pai ou de mãe dentro do seio familiar.
Fomos abandonados à própria sorte, em meio a um cenário de completa incerteza, trazido por um vírus letal. A ignorância, mais uma vez, colaborou para esse triste cenário? Sim. E, principalmente, porque foi alimentada por aquele que devia servir ao seu país e ao seu povo com a responsabilidade de um chefe de Estado.
Assistimos, descrentes, alguns chamando o vírus de “gripezinha”, incentivando o uso de medicamentos cuja eficácia jamais foi comprovada, e que, inclusive, podem trazer efeitos colaterais gravíssimos.
Era como ver um moleque, sem responsabilidade alguma, lidando com uma situação estarrecedora de forma absolutamente leviana.
E quantos foram os que guiados por seu egoísmo recusaram-se a usar máscaras. E quantos ainda são aqueles que esperam para sentir na pele o que vem a ser essa doença, para só então conscientizarem-se sobre a necessidade do afastamento social.
Minha mãe sempre me disse que não devia nem emprestar nada de coleguinha algum, que se eu emprestasse e acontecesse alguma coisa, além de continuar sem, ainda teria que arcar com o gasto de comprar um novo para repor a ele.
E hoje, assisto ao noticiário dizendo que há pessoas furando a fila da vacina. Há gente sendo nomeada às pressas para tomar a vacina, que se destina nesse primeiro momento aos profissionais da saúde...
E eu não sei se o que sinto é mais tristeza ou revolta.
Estão, há muito tempo nesse país, usurpando o direito do povo. Brincando com a dignidade humana. Não é à toa que somos motivo de escárnio no exterior, assim como não é à toa que seremos um dos últimos países a ter seus cidadãos vacinados, e não vou entrar nem no mérito daqueles que se recusam a tomar a vacina...
Se Deus ainda é brasileiro, porque eu no lugar dele já teria me expatriado, que Ele tenha piedade de nós.
0 Comentários