Voltava da aula de pilates, cansada. Só quem nunca experimentou o método é que acha se tratar só de alongamento. Pilates envolve força, equilíbrio, alongamento e, sobretudo suor, no meu caso.
Além da aula de pilates, era dia também de jejum intermitente, prática que tenho incluído em meu dia a dia, e que, para minha própria surpresa tem sido incrível. Em dias de jejum prolongado, sinto uma clareza mental absurda, como se o cérebro abstêmio de glicose funcionasse como de fato deve funcionar.
Consigo até mesmo compreender a necessidade do próprio Cristo de jejuar, quando em um momento decisivo de sua vida. O santo homem, o Deus encarnado, precisava de clareza mental, contrição e uma intimidade ainda maior com Aquele que lhe enviou, afinal, estava se preparando para a morte.
Jejuar é um pouco como morrer para si mesmo, ao passo que se renasce para a plenitude de nossa pequenez.
Daí meu olhar ainda mais atento e aguçado para com o trânsito e seu derredor naquele dia.
Trânsito intenso, mesmo ainda pela manhã. O movimento das rotatórias, tão comuns em nossa cidade, seguia em sua cadência um tanto quanto bagunçada. A vida seguia um tanto quanto bagunçada, enquanto os carros dividiam espaço com pedestres e motociclistas.
Paro. É minha vez de parar defronte ao obstáculo circular. E é essa pausa que me permite perceber um corpo, um corpo jovem debatendo-se na grama. Similarmente a uma convulsão, o moço, que deve ter menos de 30 anos, debate-se num ritmo frenético e assustador. O ritmo dos carros diminui, há quemse esforce dentro deles para visualizar melhor a cena dantesca.
Num deles, uma moça, com meia cabeça para fora, se esforçava para, simultaneamente assistir à cena e curvar os cílios com um curvex, como quem assiste a um espetáculo gratuito e cotidiano, como quem não se permite afetar pela dor do outro.
Minha mente lúcida também se curva e se questiona: por que não desci do carro? Por que não tentei ajudar? Por que era um morador de rua? Por que muito provavelmente estava tendo uma overdose? Por que o trânsito não permitia?
Desculpas... Meu cérebro em jejum as arrumou rapidamente.
Cristo o teria ajudado, tenho certeza. Só o que posso fazer é pedir que Ele também me ajude a ser melhor, porque, honestamente, sinto-me infinitamente pior que a moça dos cílios. Que Ele me ajude, muito mais do que o pilates tem feito, a saber curvar-me diante da dor do meu irmão, estendendo-lhe a mão em ajuda.
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