Foto: Yasmin Godoy/Jornal Em Dia
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Cultura

Conheça o trabalho do Instituto Entrando em Cena, que “Mostra Tudo” até a próxima quinta-feira

Nessa sexta-feira, 22, teve início mais uma edição do Entrando em Cena Mostra Tudo, ação que tem por objetivo apresentar ao público tudo o que foi produzido no decorrer do ano pelo Instituto Entrando em Cena.

O IEeC é uma instituição da sociedade civil sem fins lucrativos, que tem como missão utilizar a arte como ferramenta de transformação social, especialmente entre a juventude. Oferta oficinas e ateliês de arte gratuitos de teatro, circo e dança a jovens de diferentes contextos sociais, culturais e econômicos e, por meio da circulação de espetáculos, temporadas e ações artísticas, contribui para o fortalecimento da cultura local e a efetivação do acesso à cultura e às artes.

A fim de conhecer melhor esse trabalho, a reportagem do Jornal Em Dia visitou o instituto e conversou com a presidente e fundadora, Viviane Lessa, a arte-educadora Mariana Duarte Silveira e o aluno que acabou se tornando colaborador da instituição, Gabriel Lucas Silva.

FUNDADORA RELEMBRA TRAJETÓRIA E DESAFIOS

Foto: Jerê Nunes

Fundado em 2012 em Bragança Paulista, de acordo com Viviane, o IEeC nasceu de um “sonho de juventude”. “O instituto nasceu, na verdade, de um sonho meu de juventude, de ter um espaço de arte-educação, onde a gente tivesse diversas artes disponíveis para a juventude, no espaço de criação, de liberdade, de prática da autonomia, por meio da arte”, relata.

No começo, não foi tarefa fácil conciliar a burocracia e as atividades do instituto, mas aos poucos, ele foi ganhando identidade, patrocínios e equipe. “Foi um tempão para correr atrás de patrocínio, para formar equipe, fui bater de porta em porta em Bragança, para procurar espaço, sozinha, e aí ia chegando gente, as pessoas foram chegando para agregar, até a gente conseguir patrocínio, conseguir um espaço, ter uma equipe mínima, e começarmos”, conta.

Tudo começou com o Primeiro Ato. “É o nosso projeto de base, nosso projeto de teatro, circo e dança, nosso projeto de iniciação artística nas artes cênicas, então a gente trabalha com oficinas de teatro, circo e dança e paralelamente a isso, a gente faz uma formação no desenvolvimento humano. Eu costumo dizer que o que a gente faz é desenvolvimento humano com a desculpa das artes, que a gente usa as artes como desculpa para promover desenvolvimento humano, para trabalhar cidadania e autonomia”, explica.

No início, as aulas eram destinadas aos adolescentes, entre 13 e 17 anos, que participavam no contraturno escolar. No entanto, agora, com tantos jovens já formados e com uma sede própria inaugurada em abril de 2018, o foco do Entrando Em Cena se ampliou, assim como a faixa etária do público-alvo, hoje composto por jovens de 13 a 24 anos, que além da formação artística que recebem dentro do projeto Primeiro Ato, também passaram a receber incentivo técnico para criarem seus próprios grupos de pesquisa, que são fomentados a partir de orientação artística dentro do projeto Segundo Ato. Há, ainda, um Terceiro Ato, voltado à capacitação profissional.

As atividades são gratuitas e ofertadas a jovens que não necessariamente já têm contato com a arte. “É por isso que o Primeiro Ato a gente chama de iniciação artística, então é um despertar pras artes. O Segundo Ato, sim, é pra quem já teve contato, já foi despertado e quer se aperfeiçoar, e o Terceiro Ato é pra quem quer se profissionalizar. E aí, além desses processos de formação artística, temos um processo de formação para empreendedores socioculturais, que é para que eles comecem a desenvolver seus próprios projetos socioculturais, o Entrando em Cena no Mundo”, pontua.

O instituto se mantém hoje com o apoio de empresas parceiras, da Lei Rouanet, lei federal de incentivo à cultura, e do Programa de Ação Cultural do governo do estado de São Paulo (ProAC ICMS). Além das atividades gratuitas oferecidas pelo Programa Sociocultural, conta com o Programa Socioeconômico, que chega para suprir a demanda de público infantil e adulto, que o programa gratuito não atende, e também para encontrar uma maneira de gerar recursos financeiros para a manutenção dos trabalhos.

Como é de se imaginar, manter um espaço independente, equipes e estrutura não é tarefa fácil, por isso, Viviane afirma que o instituto está sempre em busca de novas parcerias. “Aceitamos todos os tipos de parceria, desde doação de material de limpeza, prestação de serviço, seja de transporte, alimentação, gráfica. Voluntários são muito bem-vindos, assim como doações em dinheiro e patrocinadores que queiram patrocinar via lei de incentivo, que é uma forma muito legal de patrocinar a cultura e não sai do bolso do patrocinador, e sim dos impostos”, completa.

Apesar dos desafios, patrocinar a cultura é uma tarefa gratificante, garante Viviane, que já viu muita gente se tornar artista ou uma nova motivação pessoal no IEeC. “A gente percebe na postura deles, o menino que chegou supertímido, por exemplo, que não falava, que não se posicionava, anos depois, se tornar outra pessoa, superengajada, supermotivada e multiplicando essa arte. Para alguns, se torna uma profissão, para outros, é simplesmente uma mudança íntima e humana. Vários falam muito do quanto se sentem acolhidos, do quanto se encontram, da valorização, da expressão de falar aquilo que se está pensando por meio da tua arte, que muitas vezes, não é só falada, é através do corpo. Então eles passam por um processo de ressignificação”, pondera.

“É PRECISO DISCIPLINA”, DIZ ARTE-EDUCADORA

Foto: Jerê Nunes

Praticar circo à primeira vista pode parecer difícil, mas qualquer um consegue, diz a arte-educadora Mariana. Porém, não há evolução sem foco e disciplina. “Não é uma técnica fácil de aprender, não é uma coisa imediata, então precisa de um pouco de tempo, paciência, respeito com o corpo de cada um e muita disciplina”, afirma.

Ela, que está no instituto desde o projeto, acompanha desde os jovens mais despreparados àqueles que, como Gabriel, descobrem sua vocação na arte. “A gente começa com os jovens muito diversos, tem jovem que tem trabalho corporal, tem jovem que nunca fez nada, tem jovem que fez outras atividades, então a gente tenta, nesse Primeiro Ato, focar na técnica circense, aérea, então eu escolho algumas técnicas aéreas que são básicas e a gente vai desenvolvendo essas técnicas, então a gente atualmente trabalha com trapézio, fixo, tecido liso, tecido marinho e lira”, conta.

Exigente, a professora explica que trata-se de uma modalidade que oferece riscos, por isso, é tão importante a dedicação. “Você tem que falar, não só da técnica, mas dos riscos que esse trabalho envolve. É preciso se concentrar no que você está fazendo, você tem que estar inteiro naquilo”, defende, ressaltando que esse rigor tem trazido bons resultados, já que as aulas têm um índice muito baixo de acidentes. “Eu fico feliz que eles entendem isso sabe, que a gente consegue manter um trabalho muito legal, muito bonito, com rigor técnico, com saúde, com controle desse risco”, entrega.

Os benefícios trazidos pela arte circense, segundo Mariana, são múltiplos. “O corpo muda muito, as pessoas geralmente que têm um pouco mais de peso emagrecem, porque é intenso o trabalho, aí aquelas pessoas que são sem consciência corporal também acabam desenvolvendo musculatura, e tem essa questão também dos desafios psicológicos. Tem gente que tem muito medo de subir, de altura, de ficar de cabeça pra baixo, e aos pouquinhos a gente vai trabalhando com essas pessoas também. Aí tem essa questão de você se sentir valorizado, porque eles sabem o quanto é difícil, então toda aquisição de técnica ou de tudo que eles conseguem exercitar, eles ficam felizes, então existe aí também toda uma autoestima da pessoa que vai sendo trabalhada, porque às vezes, chegam aqui com essa questão da autoestima superbaixa, que não consegue fazer nada, tem uma pressão familiar também, aí chega aqui e consegue se desenvolver, é muito legal, muito lindo”, comemora.

Ver seus alunos se tornarem artistas, ou mesmo encontrarem um novo caminho, faz todo o esforço valer a pena. Por isso, ela recomenda que toda a população confira de perto o trabalho do IEeC, e a mostra é uma ótima oportunidade para isso. “Eu acho muito válido, porque geralmente são trabalhos com muita energia por cima, são trabalhos bonitos, tem todo um cuidado estético com figurino, com cenário, com escolha de música e é bonito de ver, porque eles estão totalmente entregues, estão vivendo aquilo, fazem com vontade, então é bonito quando você vê pessoas tão jovens se entregando com disposição. É animador, eu fico muito emocionada de ver resultados sempre. Conheço-os já há muito tempo, sempre quando eles se apresentam, sempre quando chega o nosso momento de mostrar, eu fico muito feliz de ver o resultado”, conclui.

GABRIEL, DE ALUNO A ARTISTA E COLABORADOR

Foto: Mariana Magalhães

O Jornal Em Dia confirmou o processo de ressignificação citado por Viviane, conversando com o jovem Gabriel, de 22 anos, que hoje faz parte do Segundo e do Terceiro Ato, é técnico de segurança aérea e professor no projeto socioeconômico do instituto, mas nem sempre foi assim. Ele conheceu o projeto ainda no Ensino Médio, quando a fundadora do instituto visitou sua escola. “Eu sempre quis fazer artes cênicas, sempre foi meu sonho, só que no momento que ela foi eu estava estudando em período integral, fazendo técnico de suporte em informática, então era um rumo totalmente diferente... E aí, quando ela apareceu lá, foi um chamado”, relembra.

Assim que concluiu o Ensino Médio, Gabriel procurou o instituto e lá se inscreveu nos dois projetos disponíveis na época. Logo, pegou gosto, se tornou assistente de produção e hoje, é parte da equipe do Instituto Entrando Em Cena. As mudanças em sua vida foram diversas, ele explica. “Na nossa própria linha do tempo, dá pra perceber que a cada evento do instituto, nasce um Gabriel novo. Tanto por dentro, mentalmente, assim, como ser humano, quanto por fora, é uma transformação diária, a cada ação, a cada conversa, a cada reunião, a cada encontro, é uma nova transformação de verdade. Mudou tudo. O contato que eu tenho com as pessoas me trouxe uma vontade de querer ouvir, de querer saber mais sobre as outras pessoas, de acolher as outras pessoas e fisicamente, meu corpo mudou completamente, de um jovem de 18 anos completamente sedentário para uma pessoa que trabalha com o físico, que depende do corpo pra fazer o que faz. Profissionalmente, eu me descobri, como acrobata, técnico, em entender como criar um espetáculo, então acho que foi uma descoberta do meu rumo, sabe. O Instituto Entrando em Cena foi a setinha da bússola pra mim, me guiou pro meu caminho completamente, pra onde eu ‘tô’ hoje”, revela.

Para o jovem, ele acredita que a arte seja uma potente ferramenta de autoconhecimento. “Por mais que não seja uma vontade do aluno, do jovem, continuar com a arte, eu sinto que com o contato que ele tem, é como se abrisse um leque de possibilidades, que possibilita que ele pratique, que ele experimente um pouco dessa arte, mostra o que ele pode fazer, parece que tira um limite que é colocado nele de que ele só pode viver do básico, e assim pode explorar as coisas novas que nunca imaginaria, se descobrir, descobrir o mundo, descobrir novas coisas”, diz.

Assim, ele recomenda não só que os jovens conheçam o trabalho do instituto, como apoiem a arte. “Recomendo que os jovens apoiem a arte, que os jovens bragantinos conheçam o trabalho do instituto e tenham um mínimo contato com essa arte pra descobrir qual é a chama que ascende dentro deles. Eu acho que um contato com a arte é a melhor forma de descobrir o que acende a chama dentro de cada um”, finaliza.

A MOSTRA

O Entrando em Cena Mostra Tudo vai até quinta-feira, 28, com programação intensa e extensa, que conta com apresentações das diversas atividades de todas as frentes de atuação do instituto: circo, teatro, dança e cultura popular, em números, performances e espetáculos.

Todas as atividades são gratuitas, abertas ao público e acontecem no Espaço Cultural Entrando em Cena, que fica na Av. dos Imigrantes, 3.334, no bairro do Lavapés.

Confira a programação completa e mais novidades no site: http://entrandoemcena.org.br e nas redes sociais do IEeC: Instituto Entrando em Cena, no Facebook, e @entrando.emcena, no Instagram.

Viviane, a idealizadora de todo esse trabalho, finaliza com um convite à população e dá uma prévia das novidades da mostra, que neste ano, chega à sua 7ª edição. “Seria muito legal que as pessoas pudessem conhecer, eu sei que muita gente já conhece o trabalho do instituto, muita gente ainda não conhece, mas eu acho que é uma ótima oportunidade de conhecer o que a gente faz. Tem muitas oportunidades, durante uma semana inteira, a mostra é um momento muito especial, de celebração, é quando a gente coloca no mundo um pouco do nosso processo. Vou dar um spoiler: a gente vai lançar na mostra a campanha de amigos do Entrando em Cena, porque é cada vez mais difícil sustentar esse trabalho, nosso trabalho cada vez mais potente, cada vez maior. A ideia é ter amigos do Entrando em Cena que possam, durante o ano inteiro, doar valores, mesmo que pequenos, o quanto cada um puder, pra nos ajudar a manter o trabalho. E a gente vai lançar essa campanha: 12 motivos para apoiar o Entrando em Cena, durante os 12 meses do ano de 2020”, encerra.

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