Por Paulo Bressane, especial para o Jornal Em Dia Bragança
Este artigo dá continuidade às reflexões iniciadas em “A engrenagem emperrada: Por que a economia desacelera?”, publicado em 4 de outubro. Naquele texto, discutimos como a estrutura econômica brasileira se torna ineficiente e excludente. Agora, aprofundamos o papel das elites na manutenção desse modelo – e como elas moldam o Estado para servir aos seus próprios interesses.
O Brasil, como muitos países em desenvolvimento, cresce e se endivida. Esse endividamento não ocorre por acaso: ele é impulsionado por elites que exigem crescimento acelerado – seja por pressões ideológicas, avanços tecnológicos ou demandas por infraestrutura. O Estado, sem recursos suficientes, recorre a empréstimos. E quem empresta? A própria elite.
Esses recursos são direcionados para obras que beneficiam majoritariamente os credores: estradas que ligam bairros nobres, redes elétricas que alimentam grandes fábricas, valorização de terrenos e imóveis de alto padrão. Em outras palavras, a elite financia obras que aumentam seu próprio patrimônio – e ainda cobra juros por isso.
Com o tempo, o pagamento de juros consome boa parte da arrecadação pública. O Estado deixa de investir em saúde, educação e infraestrutura para pagar os credores. E quem são esses credores? Os mesmos que já acumulam fortunas e reinvestem em títulos da dívida pública, perpetuando o ciclo.
Quando o Estado se vê sem capacidade de investimento, a elite se apresenta como solução: “Somos bons gestores, deixem que cuidamos disso.” E assim, com apoio popular – muitas vezes encantada pela imagem de eficiência e sucesso financeiro – essas figuras ocupam cargos de poder e reforçam o mesmo modelo que os enriqueceu.
JUROS ALTOS, ECONOMIA TRAVADA
No Brasil, a taxa de juros real – aquela que desconta a inflação – é uma das mais altas do mundo. Isso significa que investir na economia real (abrir um negócio, produzir, empregar) é menos rentável do que aplicar dinheiro em títulos públicos. Para o pequeno empresário, o custo do crédito é proibitivo. Para o rentista, é um paraíso.
Quando o lucro da economia produtiva é menor do que o retorno financeiro de aplicações, a economia para. E isso não é um erro de gestão – é um modelo que favorece a concentração de renda e o controle das elites sobre o destino do país.
Nos países desenvolvidos, há uma busca por equilíbrio: crescimento de 2% a 3% ao ano, juros básicos entre 1% e 3%, e inflação controlada. Esse modelo permite que o capital circule, que o empreendedorismo floresça e que o Estado invista sem se tornar refém dos credores.
No Brasil, o desequilíbrio é estrutural. A elite não apenas controla o capital, mas também os meios de decisão política e econômica. E enquanto isso, a classe trabalhadora paga a conta – com impostos, com falta de serviços públicos, com oportunidades limitadas.
O que se desenha é um ciclo perverso de concentração de renda, onde o Estado é capturado por interesses privados e a população é mantida em permanente exaustão fiscal. A engrenagem gira, mas só lubrifica os bolsos de quem já está no topo. É uma reedição moderna da escravidão: não mais com correntes, mas com boletos, juros abusivos e promessas de meritocracia que nunca se cumprem. E enquanto isso, o Brasil segue emperrado – não por falta de capacidade, mas por excesso de submissão.
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