O tema do momento é, claro, o “Coronavírus”: que, advindo da cidade de Wuhan, na China, tem gerado apreensão em todo o planeta. No vizinho Japão, então, o vírus fez com que o a população local entrasse mesmo em estado de pânico: a ponto de as máscaras cirúrgicas – companheiras inseparáveis dos japoneses até no mais leve resfriado – já estarem em falta nas lojas.
A excessiva preocupação dos japoneses em evitar doenças sempre me pareceu beirar a hipocondria. Mas no caso desse novo vírus, a precaução é justificável: afinal, o risco de uma pandemia existe. O que me preocupa, porém, é que, de certa forma, o vírus veio ameaçar também as relações já historicamente conturbadas entre Japão e China. Sim: muitos ocidentais desconhecem a rivalidade existente entre esses dois países asiáticos – e, mais grave, até chegam a confundir uma nação com a outra. O que, além de um erro, constitui uma ofensa tanto para os chineses quanto para os japoneses. Por isso, a primeira recomendação que sempre faço a familiares e amigos, quando viajo ao Brasil com minha esposa, é: evitem confundir Japão e China; pois, se não conhecem as diferenças culturais entre os dois povos, podem acabar cometendo uma indiscrição. Foi o que ocorreu, certa vez, em um restaurante no interior do Rio de Janeiro, quando alguém disse a minha esposa ter conhecimento de que no Japão só se podia, por lei, ter um filho (confundindo-se, portanto, com a política chinesa de controle de natalidade). E o pior de tudo: quando minha esposa explicou-lhe que isso era na China, o indivíduo ainda disse: “Ah, sei lá. China, Japão... foi um desses países lá do Oriente”. Enfim, o tipo ainda resolveu colocar, desrespeitosamente, “tudo no mesmo bolo”...
Tal cuidado deve ser ainda maior quando falamos das relações diplomáticas entre Japão e China. De modo que, nesse assunto, limito-me a registrar apenas o que observo como estrangeiro. E, de minhas observações, o que posso afirmar é que há um grande ressentimento da parte do povo chinês, produto do histórico de guerras entre os dois países. Um ressentimento que tem, sim, suas razões de existir: afinal, a política expansionista da Terra do Sol Nascente foi responsável por um verdadeiro genocídio durante as duas guerras sino-japonesas (1894-1895; e 1937-1945). Lembro-me de que, em 2003, fui ao “Peace Osaka”, espécie de museu da Paz, e as fotos que lá existem referentes ao “Massacre de Nanquim” (1937) fazem recordar as próprias imagens do Holocausto nazista.
Por outro lado, como vizinhos, China e Japão precisam um do outro: e a prova é a longa história de cooperação econômica entre os dois países (que se tornaram – acredito que também em virtude desse misto de parceria e rivalidade – grandes potências no cenário mundial).
De modo que torço que, agora, contra o “Coronavírus”, esses dois irmãos asiáticos possam novamente deixar as rivalidades de lado e unir forças. Afinal de contas, o inimigo em questão não se importa com bandeiras.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases). Em novembro de 2019, foi o vencedor, na Espanha, do 13º Concurso de Microcontos do Festival de Cine Terror de Molins.
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