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SUB-VERSÃO

Bala

O dia mal amanhece e ele já está lá, de prontidão. Criança esperta, miúda, franzina, sim, mas muito esperta. Parece mesmo que os nutrientes que lhe faltam para desenvolver o corpo foram todos destinados ao cérebro, dizem uns e outros.

Olhos abertos, deixando-se mudar de cor pelo sol, que, generoso como só ele, também se permite entrar pelas frestas das madeiras do barraco e aquecer, ainda que um pouco, a família que passara muito frio durante a noite.

Mas quem é que consegue aprender alguma coisa com a barriga roncando, hein, seu moço?

Fica difícil de prestar atenção em qualquer fala, a fome, pressionando o ventre magro, grita, fazendo-se ouvir mais alto que qualquer outro som. A voz da professora é forte sim, ela fala bem, bem claro, pergunta se a gente entendeu tudo direitinho. E eu vou dizer que não? Entendi sim, professora, eu respondo sempre. Mas a voz que eu escuto mesmo, de verdade, é a da minha fome, guardada no vazio fundo da minha barriga.

Foi por isso que eu deixei a escola, moço. Pra que ir, se eu não aprendia nada? Eu devo ser muito burro mesmo! Então, melhor ajudar a mãe no sinal.

Meus irmãozinhos são pequenos, sabe, eles ainda não vão pra escola. Na verdade, acho que nem quando forem grandes que nem eu, eles vão.

O sinal ajuda, mesmo que seja só um pouco, a mãe comprar de comer pra gente. Tem vezes que eu até gosto de ir pra lá, às vezes até tiro um dinheirinho bom e a mãe fica feliz. Outro dia, quando eu voltei, já era de noite, e ela até chorou, e eu não sei se foi de alívio de ver que eu tava vivo ou pelo dinheiro que eu consegui naquele dia.

A mãe anda chorando bastante...

Vender bala não é fácil, eu acho até que as pessoas esqueceram da gostosura que é um docinho. Ou não, porque outro dia eu vi, dentro de um carro desses bem granfinos, um menino comendo um doce todo cheio de confeito por cima, tão, mas tão bonito, que eu fiquei olhando e até esqueci de pendurar uns pacotinhos de balas nos outros carros. Perdi tempo. Na rua, não dá pra perder tempo, moço. Naquele dia não tirei quase nada. E a mãe chorou de novo.

Minha mãe é nova, mas eu acho que tá ficando velha é de tanto chorar. O senhor por acaso sabe se fome envelhece a gente? Porque se envelhecer, eu já devo ter uns dez anos a mais... E a mãe, então, dá pra ver no rosto dela o quanto a fome dói. Dói em mim também, quando eu vejo que ela não come pra gente ter mais o que comer.

Por isso que eu continuo trabalhando, moço. Eu tô errado?

Ver a mãe da gente sofrer é quase que igual a dor da fome, é uma dor funda, que parece que não tem fim, que aperta, torce a alma da gente, sabe? Sufoca, tira o ar...

Se eu queria voltar pra escola? Eu não vou mentir pro senhor, eu queria, sim. Mas eu sou o homem da casa, vou ajudar a mãe enquanto eu puder. Depois, só depois, eu posso pensar em estudar.

A mãe também trabalha, moço. Não pense que ela fica em casa sem fazer nada, não. Ela lava roupa pra fora, pra umas moças granfinas, que não devem gostar de estragar as unhas com esse tipo de serviço. O duro é que elas pagam pouco, muito pouco.

Sabe, moço, eu acho que o meu destino é vender bala – disse o menino na sua inocência de enxergar grandeza naquilo que devia ser repudiado por toda a sociedade: o trabalho infantil.

Deus queira, se ele ainda for brasileiro, o que eu duvido muito, que o destino desse menino não seja bala, de forma alguma, nem as doces que ele vende e à sua infância junto delas no sinal, nem a amarga, do tipo que é oferecida gratuitamente ao povo da favela.

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