
“Francisco definitivamente não estava sozinho. Francisco nunca esteve sozinho. O Cristo do outro Francisco, o de Assis, aquele em quem esse último se inspirou, era Ele quem o acompanhava. Foi Ele quem sempre o acompanhou.
Nós também definitivamente, não estamos sozinhos!
O mesmo Cristo torturado e ressurreto por amor, é Ele quem ainda nos acompanha, tal qual fazia com o santo outrora, em suas visitas aos enfermos e toda a escória de Assis.
Somos nós hoje nossa própria escória, a razão, e o motivo de todo o mal. Deus, não, Deus é bom.
Tivéssemos aprendido com Francisco a respeitar nossa Irmã Natureza, nossa própria humanidade e os limites que ela nos impõe, talvez não assistíssemos a essa cena... Francisco, o Papa, sozinho na Praça São Pedro.
Tivéssemos nós escolhido viver a vida imensamente rica e abundante de Francisco, em detrimento à nossa eterna ganância e busca por parecer melhores do que realmente somos, talvez não estivéssemos hoje chorando nossos mortos. Nossos sim, porque, e Francisco nos ensinou isso também, somos todos, todos irmãos.
Mas não há espaço para um “talvez” na história da humanidade. Temos apenas o hoje, e era justamente isso que Francisco tentava ensinar.
Talvez finalmente tenhamos aprendido, talvez...”.
Será que aprendemos? Ainda me pergunto, e já se passaram alguns anos desde que escrevi esse texto...
Ainda me lembro do dia em que o conheci. O encanto foi imediato, semelhante ao que aconteceu quando conheci o outro, o original, se é que posso dizer assim. Francisco, o “poverino” de Assis, gerara em mim um encanto antes desconhecido, dada sua vida e absoluta entrega aos desígnios do Pai. Seria Mário sua versão pós-moderna?
Audacioso, pensei. Bonita e audaciosa homenagem. O novo pontífice começava bem, trazendo à igreja a lembrança da pobreza riquíssima de Francisco, o homem cuja coragem de amar o levou a obedecer cegamente a Seu Senhor, e cuja alegria em servir contagiava a todos a seu redor. Francisco, o reformador. A princípio, tomou a ordem literalmente, depois, só depois, veio a entender a profundidade e importância dessa sua reforma. Franciscos, os reformadores!
Afeitos aos animais e aos marginalizados, ambos dedicaram suas existências a refletir, feito espelho cristalino, o amor dEle.
Assim como o primeiro, Papa Francisco também recebeu um chamado à reforma da igreja, e o atendeu de forma absolutamente doce e efetiva. Dotado da coragem que só pode vir de um coração obediente e amoroso, ele ousou contrariar dogmas e amar incondicionalmente. Essa lição só pode ter aprendido junto dEle.
Talvez por esse motivo, tenha resistido bravamente, doente como estava, à Páscoa. Precisava chorar a morte e celebrar a ressurreição de seu melhor amigo. E o fez, valente que sempre foi.
Na segunda-feira, Ele veio buscá-lo. Partiu sereno, de braços dados com o Altíssimo. O semblante do Cristo ressurreto estava iluminado pela alegria de recolher junto de si um de seus melhores companheiros. O papa acusado de ser comunista só podia mesmo ser um dos prediletos do Pai. Amar aos pobres e marginalizados de toda espécie era, afinal, uma prática comum aos dois.
Por aqui, ficamos mais pobres, sem sua presença física.
Estamos todos órfãos, nós que acreditamos no amor como a arma mais poderosa de todas, e que repudiamos as injustiças e desigualdades e qualquer espécie de ódio e violência contra nosso próximo. Nós, que nem ao menos professamos a fé católica, mas comungamos do amor do subversivo Cristo. Entretanto, Francisco nos deixa também um rastro de esperança e encorajamento, a fim de que ousemos ser tão amáveis quanto ele foi. Que Ele nos ajude!
Doente, ele resistiu à morte de seu melhor amigo, com a coragem que só os amorosos têm. Celebrou a ressurreição dele e seu triunfo sobre ela.
Hoje, Ele veio buscá-lo.
De fato, nunca estiveram separados.
O Altíssimo recebe hoje, em festa, um amigo: a Páscoa está completa!
“Vamos, cariño! Ya es tiempo de volver a su casa!”
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