
Esta foi a última mensagem do Papa Francisco, que nos deixou no último dia 21 de abril: a paz é possível! – uma mensagem de esperança num mundo despedaçado e em ruínas.
Já quase sem voz e sem forças, agravados pelos recentes problemas de saúde, a mensagem lida pelo mestre de cerimônias expressava as preocupações de Francisco com o sofrimento sem fim do povo palestino, diante de um conflito que segue gerando mortes, destruição e uma dramática crise humanitária.
Conflito esse diante do qual o mundo se cala, parece fingir não ver, ignora, se omite. Mas Francisco não: ele nunca se calou diante desse genocídio televisionado. Não teve medo ou temeu dizer o que precisava ser dito, como nunca se calou face a tantas formas de violências e violações do nosso cotidiano. Alguém que nunca se omitiu diante das injustiças, violências e toda forma de arbitrariedade vividos por aqueles que mais sofrem.
Assim foi Francisco...
O Papa que pregou a paz, o amor e a misericórdia infinita do Deus que segue. Alguém que não pregava versos decorados ou reproduzia narrativas intimidadoras, porque o Sagrado para ele é alguém bondoso, generoso, compassivo e misericordioso.
Seu papado mostrou o sentido concreto da Igreja ao escolher estar ao lado dos mais pobres, injustiçados, abandonados e daqueles que mais precisam. Enfrentou poderosos, desafiou religiosos, implementou mudanças e reformas no interior na própria Igreja, no horizonte de algo mais humano e fraterno. Alguém aberto ao diálogo, disposto a construir pontes e não a fazer muros.
Alguém que reconheceu e pediu perdão pelos crimes que não cometeu, diante das tantas feridas, dores e abusos cometidos pela própria Igreja ao longo do tempo...
E justamente pelos enfrentamentos que fez e pelo lado que escolheu estar, foi um desaforo para muita gente, acumulou desafetos e incomodou conservadores. Houve quem desejasse sua morte e hoje a comemora sem nenhum pesar.
Assim foi Francisco...
Alguém que cuidou da casa comum, que clamou incansavelmente para que também cuidássemos, porque sabe que o meio ambiente não está mais aguentando a exploração desenfreada que sofre e sabe que serão (novamente) os mais pobres que mais sofrerão as consequências da crise climática.
Assim foi Francisco...
Alguém tão necessário quanto importante nos dias de hoje, em que impera o ódio e a intolerância; em que se propaga a indiferença, individualidade e o egoísmo; em que prevalece o desamparo e a desproteção.
Ele abdicou do glamour, do trono e do poder para seguir o caminho do Evangelho que prega e da fé que acredita, tendo o serviço e o amor infinito na centralidade de suas ações.
Assim foi Francisco...
Alguém que tantas lições nos deixou. Resta-nos seguir seus ensinamentos, porque agora ele descansa em paz!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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