Escrevi há alguns dias, nas redes sociais, uma mensagem de gratidão pelo ano de 2022. Fui sincero, posso afirmar, em cada linha daquela mensagem. Realmente agradeço por mais um ano vivido: tanto pelas dificuldades quanto pelas superações e alegrias. Pois assim têm sido todos os anos no calendário criado pelos habitantes deste complexo e também fascinante planeta azul. E, na ocasião, para concluir a mensagem, citei um filme de que gosto muito – “A Vida é Bela” –, dizendo: “Aconteça o que acontecer, lembremos que a vida é bela”.
A respeito desse otimismo, que para alguns pode parecer ingênuo, os japoneses possuem esta frase que considero de grande valor: Kibou wo ikashitsuzukenasai. Traduzindo: Mantenha a esperança viva. Simples e poderosamente verdadeira, a meu ver. Tudo acaba, ou pelo menos fica mais difícil, quando matamos a esperança que deve residir em cada um de nós.
Pode parecer mais um daqueles textos motivacionais, mas, como eu disse sobre a mensagem da rede social, também acredito piamente em cada palavra que aqui e agora escrevo. Pois é assim que desejo começar este “ano do coelho”: dando pulos de esperança. Sei, por outro lado, que o mundo não tem parecido muito auspicioso à Esperança, considerando tantas guerras e doenças que nos torturam diariamente. Mas, mesmo com as tristezas, ainda há a beleza que resiste, principalmente pelas mãos da Arte.
Outro dia, por exemplo, no prédio onde trabalho aos sábados – o Tokyo SkyTree –, vi uma cena muito bonita. Algum anjo teve a magnífica ideia de colocar um piano na entrada do prédio para ser tocado por quem assim o desejasse. E como foi lindo ver os transeuntes parando e arriscando algumas notas! Pais e filhos; adultos, crianças... Cada um tocando um trecho de sua música preferida, enquanto outros, como eu – que infelizmente não sei tocar instrumento musical algum – paravam para deliciar-se com e aplaudir aquela bela sinfonia, composta, em pedaços, por tantos corações anônimos.
E, enquanto observava cada pianista, lembrei-me novamente do filme de Roberto Benigni, cujo personagem, Guido, tentava manter viva a esperança (tal qual a frase japonesa ensina) no coração de seu pequeno filho, em meio aos horrores do Holocausto. Sim, a esperança: a única que só se acaba quando nós mesmos decidimos sufocá-la.
Então, amigos, que, neste ano de 2023, possamos seguir mantendo a esperança viva. Decepções? Perdas? Tristezas? Tudo isso haverá, mas não sem os muitos pedaços de beleza espalhados por aí. Basta temos um olhar sensível e o coração aberto para ir identificando e recolhendo esses pedaços pelo caminho.
Tocando piano, enfim, e contribuindo, cada um com um trecho, para o sucesso dessa grande e linda sinfonia que é a vida.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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