A política do underground

Como estamos às vésperas de mais uma eleição, aproveito a oportunidade para escrever sobre política, sobre o que ela tem a ver com nosso cotidiano e também, porque não, o que tem a ver com o rock’n’roll e com a cultura do rock independente ou underground.

Quando andamos pelas ruas, ou sentamos em algum bar, ou qualquer outro lugar em que há reunião de pessoas, é comum ouvir “odeio política”. Já virou banal usar um termo como esse, mas as mesmas pessoas que fazem uma afirmação como esta não sabem o que é realmente política. A política é referente à comunidade, à sociedade e etc.

E como fazemos política no underground? Isso é simples. No início deste mês de agosto, organizei um evento com três bandas independentes em Itatiba. O local escolhido, como sempre, foi o Bar do Celso, único ponto que abre espaço para bandas que tocam músicas próprias. As bandas convidadas foram: Espasmos do Braço Mecânico (São Bernardo do Campo), Gatilho (Itatiba) e Bad Cookies (Guarujá).

Com data, local e bandas definidas, começaram as conversas para empréstimos de equipamentos, divisão de tarefas entre as bandas, o que cada uma deveria trazer, qual seria a primeira, qual encerraria o evento, tempo de apresentação, espaço para comercialização de CDs, camisetas e outros objetos.

Você pode pensar sozinho sobre um show, mas jamais o realizará sozinho. Há cartazes para serem desenhados, espalhados pela cidade, divulgados via internet, entre outras formas de divulgação, para mostrar o que pode vir a ser o evento. Para isso, gasta-se gasolina, solados de tênis, muita saliva, muito suor.

No dia do evento, tem que carregar equipamento, montar, ajustar, ficar no aguardo da chegada do público, das bandas. Com tudo pronto, o público anima-se, curte, canta, pula, “poga”, entre outras loucuras que só um show de rock pode proporcionar. Não há, nesses momentos, brigas, não há diferença social, nem religiosa e muito menos sexual. No momento em que as bandas disparam seus riffs e acordes, o mundo transforma-se em uma grande espaçonave, todos viajam, todos curtem, todos se divertem.

E como é comum no rock, muitas bandas usam de seus shows para falar sobre suas ideologias, seja por meio das letras, das canções ou do comportamento sobre o palco. A consciência de viver com as diferenças ocorre sem o menor problema. As críticas são absorvidas e inconscientemente as pessoas que ali estão levam aquilo com elas.

Ao final da apresentação, pessoas se cumprimentam, se abraçam, convidam outras para dividir a cerveja, o refrigerante, a porção de batata frita. As pessoas fazem economia, elas consomem, elas pedem desconto, elas comparam o movimento daquele local com os de suas cidades. Elas tentam levar a experiência adquirida para sua rua, sua casa e tentam aplicar o que presenciaram.

Por isso, se um show de rock não é um ato político, não sei mais o que é. Diversidade sexual, etária, social, todos unidos por um único motivo: ouvir e compartilhar momentos de boa música. E, no dia do evento, as bandas ficam insaciáveis, querem mais e mais, e o público aproveita para acompanhar boas horas de rock, o rock feito de maneira humana, sem frivolidades, com músicos que não se conheciam até então, trocando ideias, experiências, ajudando na regulagem de equipamentos, emprestando, divertindo os outros e a si mesmo.

Organizar um show de rock, de poucas ou muitas horas, é, sem dúvida, fazer política. Você que vai a shows, que compra discos, camisetas e fala sobre suas bandas preferidas, está fazendo política. Assim como o rock, a política está presente em nossas vidas a toda hora, em qualquer lugar. Não deixe ser contaminado pelo que a mídia divulga, pois o que os chamados “políticos” fazem está muito longe de ser política. Política é a ideologia do dia a dia e ela é uma arte, assim como o rock’n’roll.

 

Ivan Gomes, 34, é editor do blog Canibal Vegetariano:

http://canibalvegetariano77.blogspot.com.br

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