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SUB-VERSÃO

À margem

Ao chegar em casa, não consegui conter as lágrimas ao contar o que havia presenciado aquela manhã. Sim, eu chorei, mas não lhe dei o que vestir, nem o que comer.

Era Cristo, estou certa disso! Encolhido, em posição fetal, seu corpo esquálido e gelado como que buscando o aconchego de outrora, quando ainda no ventre da Mãe Santíssima.

Quase não o noto, como sempre acontece com as coisas mais sagradas. Quase que meus pés esbarram nele. Estava na calçada, em frente ao laboratório de onde eu havia acabado de sair, com o braço escorrendo algum sangue indevidamente. O sangue! Ele o derramou por mim...

Como não o notara na chegada? Era só o que conseguia pensar. Como não me atentara ao fato de que, no frio absurdo que tem feito, ainda há quem durma ao relento daquela forma?

Havia usado três cobertores na noite anterior. Cristo usava um só, e daqueles bem ralinhos. O corpo repousado na calça gélida não devia conseguir se aquecer, na verdade, devia estar congelando.

Teria comido antes de adormecer? Estaria ainda vivo? Costumo dizer que em dias muito frios sinto mais fome que o habitual.

Como, afinal, conseguira adormecer com fome e com tanto frio?

Teria o próprio Deus-Pai induzido seu sono com alguma antiga canção de ninar que só os dois conheciam? Prefiro pensar que sim.

A culpa me acompanhou até o conforto do meu carro e, depois, até o conforto do meu lar. Lar! Três letras apenas e um significado tão absurdamente intenso!

Cristo é meu lar e ainda assim fui capaz de deixá-lo, sozinho e com frio naquela calçada... E à semelhança dele, quantos outros? Cristos!

Cristos abandonados por nós, seus irmãos, à mercê do frio, da fome e da maldade de nosso egoísmo. O Pai, não, esse nunca o abandonaria. Deixou-nos a tarefa de cuidar deles, amando-os como a nós mesmos.

Amei-me muito pouco naquele dia, aliás, me detestei pelo simples fato de ter permanecido imóvel diante da atrocidade do Cristo marginalizado ao relento.

Percebo que estou eu também à margem, quando me permito à inércia. Estou marginalizada do amor e de tudo o que ele é capaz de proporcionar. À margem do colo de Deus, à margem de minha própria humanidade.

***

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