4 / 8 = ?

Era apenas uma conta simples: quatro dividido por oito. Você sabe o resultado, matemático leitor? Quando você aprendeu a fazer um cálculo como esse? Quinta, sexta série? Quando você aprendeu a lidar com frações? Quarta, terceira série? O raciocínio básico pode ser o seguinte: quatro oitavos equivalem a quatro partes de um inteiro que foi divido em oito partes, certo? Uma pizza, por exemplo. Quatro pedaços equivalem a meia pizza, logo, quatro oitavos equivalem a um meio, ou zero vírgula cinco, se escrevermos no formato de números decimais. Difícil? Acontece que numa prova de Física do Ensino Médio, num cálculo de velocidade, ou aceleração (pouco importa a grandeza física agora), o número de alunos que responde que quatro dividido por oito é igual a dois é muito maior do que gostaríamos de pensar.

 

PROGRESSIVO OU RETRÓGRADO?

Se você pegar a rodovia Fernão Dias, sentido Minas Gerais, vai ver que o quilômetro zero fica um pouco antes de Extrema, na divisa entre os estados de São Paulo e Minas. Continuando na mesma estrada, atento à quilometragem, o motorista pode observar que ela diminui à medida que você adentra o estado mineiro. Pronto, você acaba de entender o que é o movimento retrógrado. Já o movimento progressivo é o contrário. Se você pegar a Fernão pra ir a São Paulo, os quilômetros irão aumentando enquanto você viaja. Simples? É apenas uma classificação de movimentos que fazemos para estudá-los na Física. Agora uma parte de uma questão de prova: dado um determinado contexto, classifique o movimento descrito em progressivo ou retrógrado. Resposta: “progrecivo”. Justificativa: por que o espaço “almenta” ao longo do tempo. O que está acontecendo com os alunos que escrevem “progrecivo” bem ao lado da palavra “progressivo”? Escrevem assim por que leem pouco? Escrevem pouco? A culpa é da internet? Do “internetês”? A culpa é do sistema? O bom Português está virando uma língua morta? E a boa Matemática? Acho que vivemos um período de movimento retrógrado quando o assunto é a boa Educação.

 

A EDUCAÇÃO PARA GERALDO ALCKMIN

“Uma revolução no Ensino Superior” – foi este o título que o nosso governador deu a um texto de sua autoria exaltando um projeto de lei do seu governo que tem o objetivo de criar a quarta universidade estadual paulista: a Fundação Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo). Veja um trecho: “A Univesp permitirá a democratização do ensino superior numa escala quantitativa e qualitativa que se pode considerar revolucionária. Isso porque associará o centro de excelência educacional do país, localizado em São Paulo, às mais modernas tecnologias de educação à distância, abrindo oportunidade a milhares de jovens que não conseguem frequentar uma universidade porque habitam os rincões do Estado, ou porque trabalham em horários incompatíveis com as aulas presenciais tradicionais. (...) A estimativa é que, até o final desta década, metade dos cursos universitários oferecidos no mundo será ministrada por intermédio da rede de computadores.”.

 

EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA DE QUEM?

Caro governador, ainda não podemos apostar as nossas fichas (e o nosso dinheiro) na Educação à Distância e em Universidades Virtuais. Sabe por quê? Porque nossos estudantes de Ensino Básico, que habitam os “rincões do Estado”, ou que “trabalham em horários incompatíveis com as aulas presenciais”, como o senhor mesmo disse, não têm condições de fazer um curso superior, seja ele presencial, semipresencial, virtual ou real. Não nos iludamos, governador. Não é que sejamos contra as tecnologias que nos permitem hoje montar um curso superior e ministrá-lo à distância, mas antes disso, precisamos preparar os nossos estudantes para que possam tirar um bom proveito das “universidades virtuais”. Afinal, mais do que nos cursos presenciais, elas requerem altas doses de autonomia intelectual, já que os estudantes passam a maior parte do tempo (ou todo o tempo) longe dos olhos e da tutela dos professores. Governador, precisamos investir muito mais pesado no Ensino Básico, antes de ampliar as fronteiras do Ensino Superior. A verdadeira Educação está ainda à distância, a uma distância muito grande de todos. Precisamos transformar o nosso Ensino Básico, que ainda está muito mais para “progrecivo”, em um ensino “progressivo”. Para que não sejamos um estado ou um país “retrógrado”. Não se iluda e não nos engane, governador.

 

UMA CIDADE SE FAZ COM HOMENS E LIVROS?

Parafrasear Monteiro Lobato, com uma ligeira adaptação, não é o forte do Governo Jango. Na Terra da Linguiça, por exemplo, os livros (e os homens) não têm lá muito valor. Você deve ter acompanhado, atento leitor, que, na semana passada, foram encontrados mais de cento e cinquenta livros, ainda embalados, em uma empresa de reciclagem aqui da cidade. A quantidade pouco importa. Estes livros foram enviados pela União, via Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, para serem usados nas escolas municipais e estaduais da cidade até 2013. Junto a eles havia até uma carta com instruções de como e onde utilizá-los. Livros novos jogados fora. Dinheiro nosso jogado fora. Educação de todos jogada fora. E o Governo Municipal? E a Secretaria Municipal de Educação? A culpa é de quem? Aliás, interessa de quem é a culpa? Será que dá pra nós começarmos a entender por que os estudantes desta cidade, deste estado e deste país escrevem “progrecivo” e não sabem quanto é quatro oitavos?

 

PRA FINALIZAR

“Loucura? Sonho? Tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra maneira, mas tantos sonhos se realizaram que não temos o direito de duvidar de nenhum” (Monteiro Lobato)

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