Era uma mulher obstinada, absolutamente resoluta a respeito daquilo que estava prestes a fazer. Mas nem mesmo os passos firmes em direção ao objetivo conseguiam tirar de seu rosto um certo ar de alegria e satisfação. Estava claro que o fazia por prazer e só por prazer.
E quando é que eu fiz alguma coisa por prazer? Única e exclusivamente por prazer? Estendo a pergunta a você, leitor... Quando é que foi a última vez? Parece que nosso prazer está sempre atrelado a alguma culpa, mínima que seja, não é? Vou me exercitar por prazer, mas também porque preciso perder uns quilinhos...
Parei por alguns segundos para observar, admirada a cena, talvez também para recobrar um pouco o fôlego, afinal, já não sou mais nenhuma menininha.
Que baque! Aonde é que você está indo, fulana? Desculpem-me, não me lembro do nome dela. Ainda não é hora da sua aula! Disse o professor, com seu jeitinho e tom brincalhões de sempre.
A mulher era na verdade uma adorável menininha, linda em seu maiô multicolorido, ansiosa por entrar na piscina para a aula de natação. Ainda estávamos nós, os adultos, ocupando a piscina, quando ela, movida pela espontaneidade que só as crianças têm, alçou passos largos e descalços em direção à borda.
Ela riu, nós rimos, e voltou para o lado de fora.
Sabem, eu estive por muito tempo do lado de fora da piscina, só fui aprender a nadar aos 38 anos, mas naquele dia, depois de finalmente voltar para a aula, depois de um tempinho afastada, senti-me representada por aquela doce menininha. De opinião, firme em seus propósitos! Minha aventura na piscina me exigiu essa firmeza também, aula após aula, “afogamento” após “afogamento”, sem desistir, sem nem pensar na vergonha, sem deixar que o medo, absurdo na época, me dominasse por completo.
Quisera eu ter tido a coragem daquela garotinha antes... Mas coragem é o que a vida requer de nós sempre, não é mesmo? Seja nas águas turbulentas de nossa existência ou em terra firme, quando em tempos de bonança.
Tenho um orgulho danado do fato de ter aprendido a nadar, apesar de toda a dificuldade. Tenho um orgulho danado daquela garotinha por sua iniciativa e por sua audácia. Espero que essas características a acompanhem pela juventude e vida adulta.
Quando saí da piscina, cansada e feliz, vermelha e pingando, lá estava ela, bem próxima à entrada e eu não resisti:
- Agora você vai nadar?
Ganhei um sorriso e um aceno afirmativo de cabeça como respostas.
- Que delícia! Sorri de volta.
Eram duas meninas se encontrando, duas almas desejosas de aventura, uma delas, a menina mais velha reconhecendo-se no misto de inocência e de coragem da outra, mais nova, ambas mulheres, ambas fortes, ambas nadadoras, cada uma à sua maneira.
Passei tanto tempo na borda... Passamos tanto tempo à margem, mas só até acendermos a coragem que existe em nós, só até nos encararmos no espelho, reconhecendo-nos como verdadeiramente somos: crianças!
E não é essa a vontade dEle para nós? Que sejamos como crianças? Quero ser como criança, com meu maiô multicolorido e minha touca de florzinhas, e encarar com coragem e inocência as águas todas, e isso, pelo simples prazer de estar viva!
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