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Olhar Social

Uma epidemia generalizada

Diz o ditado popular que em mulher não se bate nem com uma flor. Mas aqui, em terras brasileiras, não é bem isso que acontece...

Aqui se bate, oprime, violenta e mata muitas mulheres cotidianamente!

Não é raro folhear as páginas dos jornais ou ouvir os noticiários do dia e se deparar com mais uma trágica história de feminicídio. Isso mesmo: o assassinato de pessoas do gênero feminino. Matar uma mulher por ser mulher, pelo ódio a elas!

O Brasil amarga dados alarmantes nesse quesito. Aqui, segundo o Atlas da violência de 2025, em média dez mulheres são assassinadas todos os dias no país. Só entre 2022 e 2023, o número de homicídios contra mulheres cresceu 2,5%, indo na contramão da tendência mundial de redução. Dados esses que podem não retratar o tamanho exato do problema, já que muitos casos podem não ser notificados enquanto tal. Ainda assim, já temos pistas mais que suficientes que vivemos, na realidade, uma verdadeira epidemia, tão silenciosa quanto generalizada, de matança de mulheres!

Outras formas de violência também fazem parte do nosso cotidiano e agravam ainda mais essa trágica realidade. Dados do Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), do Ministério da Saúde, por exemplo, mostram o aumento expressivo da violência não letal. Só em 2023, foram registrados 177.086 atendimentos a mulheres vítimas de violência doméstica, elevando o índice para 22,7% em relação ao ano anterior. Desse universo, uma em cada quatro vítimas tinham entre 0 e 14 anos. Isso mesmo: crianças e adolescentes, ainda muito pequenas, já vivem na pele o que é ser mulher num país tão violento quanto misógino, como o Brasil.

Das mais diversas formas de violência contra crianças e adolescentes, cerca de 80% delas são praticadas pelos próprios familiares. Ou seja, é no interior dos lares que, em grande parte, as violências são cometidas e reproduzidas. E é também no contexto doméstico onde se reproduz as inúmeras formas de violência contra a mulher, o que faz desse lugar um espaço muito perigoso e inseguro para quem vive e convive com a violência e com seus agressores.

Na prática, esses dados de realidade retratam o comportamento de uma sociedade como a brasileira, machista, misógina, reprodutora e mantenedora da desigualdade de gênero, que se estrutura no patriarcalismo – enquanto uma forma de organização social, na qual o homem é o detentor do poder, inclusive sobre a mulher.

País onde paira o perigo constante em ser mulher – nascer ou se reconhecer do gênero feminino –, onde se convive com o medo, preconceito, assédio e as inúmeras estratégias de sobrevivência para seguir viva por mais um dia!

Perigo vivido diariamente por muitas mulheres ao terminar um relacionamento, ao dizer “não” ou recusar algum galanteio, a resistir ou denunciar a alguma forma de assédio, a viver o menosprezo e o ódio – cada vez mais ascendente nos dias atuais – dispensados simplesmente pela condição de ser mulher!

Ainda que importantes avanços e iniciativas venham se dando ao longo dos anos, tanto como mecanismo de proteção às mulheres como de sanção aos seus algozes, ainda há muito a ser feito. As delegacias especializadas de atendimento à mulher, a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio como crime são expoentes importantes dessas conquistas – disso não há dúvidas. No entanto, há de se assegurar e consolidar a estrutura necessária para que esses avanços de fato se concretizem, porque elas seguem sendo mortas!

Uma educação de respeito ao gênero feminino também é parte da mudança dessa realidade, especialmente no contexto atual, em que redes sociais e plataformas virtuais fomentam bolhas de ódio e violência contra as mulheres. Assim também o reconhecimento de políticas públicas – e o compromisso republicano das/dos representantes políticos implicados com a pauta – que enfrentem a estrutural desigualdade de gênero existente no país.

Talvez assim, ou só assim, ao abrir as páginas do jornal tenhamos notícias melhores!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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