Era uma sexta-feira à noite, de noite não muito quente, uma exceção às noites de calor infernais que se seguiram ao longo da semana. Então, resolvi colocar uma camisa. Camisa florida, um tecido leve e claro, recoberto de pequenas e delicadas florzinhas em tom cereja, mas, camisa. Camisa, calça jeans e sapatilha. Achei razoável. Confesso que há dias em que a vaidade não é meu forte.
Íamos ao teatro, mais especificamente à Casa de Cultura assistir a uma peça intitulada “Lulu, a feia”. Confesso também que não sabia ao certo do que se tratava, mas como acontece sempre que tomo conhecimento de uma peça teatral, e ainda mais, gratuita aqui em Bragança, logo me interessei, e fomos.
Mal supunha eu ter escolhido o modelito mais adequado, afinal, a peça versava sobre a vida do genial estilista Yves Saint Laurent, conhecido por ousar vestir as moças com tailleurs e outros trajes, até então, exclusivamente masculinos. Eu vestia uma camisa, mas me deixei despir a alma para a delicadeza grotesca com que aquele espetáculo me atingiu.
Foi uma hora de poesia e do questionamento que ela sempre incita.
Em uma hora, de um espetáculo aparentemente simples, desprovido de muitos extraordinários recursos, eu pude ver uma alma humana desnuda diante de meus olhos, através da história de vida de Yves, o garoto que bordava.
Yves, o garoto que vestia a mãe e as irmãs e foi incapaz de vestir a si mesmo de uma armadura que o impedisse de sofrer os ataques cruéis que sofreria ao longo da vida, apenas por ousar ser quem era.
Yves, o garoto, o estilista genial, cuja existência marcou para sempre o mundo da moda, fora hostilizado ainda criança, quando, orgulhoso de seu trabalho artístico resolvera levar seu bordado para escola, a fim de mostrar sua arte e paixão aos coleguinhas de classe. Naquele dia, um pouco da magia se desfez, e o pequeno Yves defrontou-se, pela primeira vez, com a fúria dos homens, que desde meninos aprendem a odiar o que quer que lhes fosse tido como diferente.
Ridicularizado pelos colegas, foi muitas vezes ovacionado pelo público e pelos críticos de moda.
Envolto em uma atmosfera de luxo, à qual fora transportado por seu trabalho ímpar, eu quase que consigo ver um Yves ainda menino, ainda frágil e suscetível à desaprovação de seus pares.
O nome que revolucionou o mundo da moda parecia mesmo carregar um fardo muitíssimo pesado consigo: o de ser, ou, ousar ser quem era.
E eu me perguntava ao longo da peça, e movida pela atuação belíssima e apaixonada de Fause Haten, o que é que andamos fazendo? Ou melhor, quem é que são, afinal, essas pessoas que julgam-se em posição de julgar e condenar o outro, seu semelhante?
O que é que elas escondem, que é assim tão abominável, a ponto de lhes ser preferível hostilizar o outro a assumir quem realmente são, quem realmente somos: seres humanos.
Mas a vida de Yves não foi toda um tormento, Yves amou. Mas quem é que disse que amar não é aceitar uma certa dose de tormento? E seu amor por Pierre e pela arte da moda, se é que posso definir moda assim, talvez tenham sido também seus algozes.
Quando a alma já não encontra mais a paz de que necessita, há de se buscar artifícios, Yves os buscou. Não dizem que todo artista tem um pouco de doido? Eu, sinceramente, não sei. Mas o fato é que quase sempre os mais talentosos são também os mais frágeis. Aqueles a quem tememos pela potência de sua capacidade inventiva e pela genialidade de suas criações são também aqueles que, muitas vezes, sentem-se incapazes de lidar com o mundo e relacionar-se com ele de forma natural. Não, os gênios não pertencem a esse mundo.
Yves não pertencia. Talvez seu mundo fosse mesmo aquele, que suas mãozinhas ágeis criavam fio após fio, cor após cor, no seu bordado de menino. Talvez Yves desejasse mesmo permanecer lá, em seu mundo belo e particular, onde talvez só houvesse espaço para arte e para o amor, nada mais.
A singularidade de almas assim me comove e me lembra do absurdo desses nossos dias de ódio. Do mal que impelimos ao nosso semelhante, da manutenção do mal, através de ideologias passadas de geração para geração.
E eu lembro-me, que ao contrário de Yves, eu não tenho um bordado no qual me abrigar do mundo e de mim mesma, visto que nunca me dei bem com essas prendas. Mas tenho as palavras, tenho a poesia, e sobretudo, tenho uma alma, que ainda se permite deleitar-se com momentos como esses, assistindo a uma magnífica peça teatral.
Yves Saint Laurent faleceu em 2008, vítima de câncer. Só após sua morte, seu namorado, Pierre Bergé, contou que o ícone fashion batalhou para se livrar do vício em álcool e drogas e ainda sofria de transtorno bipolar: “ele era maníaco depressivo”.
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