No último dia treze, o governo japonês decretou: máscaras, a partir dessa data, não mais serão de uso obrigatório. Mas, no Japão, o governo determina, e o povo, se não estiver de acordo, silenciosamente invalida. É a “sutil rebeldia” sobre a qual já falei em crônicas anteriores. O que significa que, se a coletividade ainda temer o vírus, de nada adiantará o governo dizer para ficarmos tranquilos.
E é justamente o que tem acontecido. A maioria, seja em ambiente fechado ou nas ruas, tem preferido manter as máscaras.
Chamem isso de precaução excessiva, paranoia ou hipocondria; mas a verdade é que faz sentido tanta hesitação por parte dos japoneses para livrarem-se das máscaras de uma vez por todas. Afinal, nos últimos anos, o que vimos foi que esse famigerado vírus (e suas variantes) tem sido um diabólico ioiô: quando pensamos que o pior passou, lá ele volta... e mais forte!
Quanto a mim, seguindo a maioria, também só vou arrancar a máscara quando estiver absolutamente seguro de que o risco é zero ou próximo a isso. Sim, tenho a consciência de que ter a boca e o nariz tapados todo o tempo não é uma sensação agradável. Porém, nesse caso, sendo pai, professor e animal social (não necessariamente nessa ordem), devo ter bom senso e cautela. Claro que, por outro lado, sonho com um mundo em que o meu filho, ainda uma criança, não tenha de ver somente gente mascarada (exceção feita aos mascarados de espírito, esta uma espécie mais difícil de ser identificada). Enquanto esse dia não chega, porém, só nos resta dançar conforme a música ao redor.
De modo que, reitero, seguindo o povão, vou continuar usando a máscara. O que, aliás, não será nenhuma esquisitice, uma vez que, mesmo antes da pandemia, os japoneses já tinham esse costume de proteger-se com máscaras. Lembro-me de que, ainda em 2007, quando trabalhava em uma empresa de recursos humanos em Tóquio, uma das regulamentações era que, em caso da mais leve gripe, fôssemos trabalhar usando máscaras. E assim fazíamos, porque aqui, como escrevi acima, segue-se a coletividade.
E a coletividade, ao que parece, neste março de 2023, ainda não está lá muito a fim de jogar fora as incômodas máscaras. Tenho inclusive alguns estudantes, adultos, que mantêm, além da máscara, o uso de luvas. Há um até que limpa a sua mesa com um spray desinfetante (ainda que o façamos a cada intervalo) quando chega à sala de aula. Parece exagero? Certamente. Mas, de minha parte, não reclamo nem proíbo. Porque, afinal, além de não afetar diretamente a saúde dos outros (pelo menos não a física), ele também é bom cliente, pagando em dia pelas aulas. E um bom cliente, meus amigos, mascarado ou não, sempre há de ter razão. Banzai!
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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