No último dia oito, minha tia Cleonice – a quem todos na família tratavam carinhosamente de “tia Leu” (assim mesmo, transformando o “o” em “u”) – tornou-se mais uma estrela no céu.

Creio que não tenho palavras suficientemente justas para expressar o quanto tia Leu foi importante em minha vida. Então escreverei aqui pedaços de lembranças; momentos, enfim, em que minha tia foi um verdadeiro anjo em minha vida.
Era meu aniversário de oito anos. Pouca gente compareceu à festinha, feita com um bolo simples e algumas garrafas de guaraná, que minha mãe carinhosamente havia preparado. Mas ela, sim, estava lá: trazendo-me aquele que seria de fato o primeiro livro que eu receberia de presente em minha vida – “O Pequeno Príncipe”. E ali, com aquele gesto, tia Leu iniciava-me nos caminhos da Literatura.
Foi tia Leu também que, com o seu salário de professora, pagou por minhas aulas de Inglês (meus pais, infelizmente, não tinham condições financeiras para tal). E ela fez isso do início ao fim, enquanto outros parentes, que haviam se comprometido a fazê-lo, “pularam logo do barco”. Explicando: entrei para um curso de Inglês aos nove anos de idade porque um casal de tios, dizendo que eu era uma criança, segundo suas próprias palavras, “com potencial”, vieram perguntar-me se eu queria fazer um curso de Inglês ou de natação. Nem pensei duas vezes. Afinal de contas, desde que me conheço por gente, tive essa ideia fixa de construir uma carreira internacional – e nadar, no meu caso, não me ajudaria muito para tal objetivo. Pois bem: comecei o curso e, após alguns poucos meses, as mesmas pessoas que me convidaram para fazê-lo deixaram de repassar o valor da mensalidade. Tudo bem: era um direito deles o de voltar atrás com a palavra dada. Fiquei triste, claro, pois sabia que ali o meu sonho seria interrompido; uma vez que não me restaria outra alternativa senão desistir do curso. Foi quando, ouvindo de minha mãe que eu teria de parar com as aulas, tia Leu disse: “Pode deixar que eu pago o curso do garoto”. E assim o fez por quatro anos. Dando-me o dinheiro religiosamente todos os meses para que eu fosse avante. E o resultado da sua generosidade? Formei-me em primeiro lugar no curso. Óbvio que, ao dar-lhe essa notícia, abracei-me a tia Leu, emocionado. E ela, retribuindo com um sorriso alegre e espontâneo como só ela sabia dar, limitou-se a dizer: “Muito bem, garoto. Mas não pare por aí”.
O mesmo sorriso de orgulho que vi quando, anos mais tarde, formei-me também em Direito. Pois assim era tia Leu – alegrava-se sempre quando alguém, saindo da pobreza, triunfava por meio da Educação. Assim como ela o fez: partindo do interior do Amazonas para concluir a faculdade de Pedagogia em Manaus e, a partir daí, retransmitir o conhecimento obtido com muita luta e dedicação.
No dia oito de dezembro de 2023, enfim, tia Leu descansou de suas longas batalhas. E, assim como ocorreu quando minha mãe partiu há três anos, também não pude despedir-me de tia Leu, que, igualmente, teve por mim um amor maternal.
Despeço-me então, tia, agora, com esta crônica e uma frase que tenta expressar um pouco do que eu sinto, e sempre vou sentir, pela senhora: obrigado, tia, por haver existido em minha vida.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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