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SUB-VERSÃO

Testamento

Se uma criança está escrevendo seu testamento, é porque aquele que deixamos para ela e seus amiguinhos foi o mais aterrorizante possível. Lhes deixamos como herança a guerra, dividindo-as entre seus pares, mas só entre alguns, os menos favorecidos, os pobres, a quem anteriormente já havíamos deixado também nossa indiferença. Deixamo-lhes a deseperança, afinal, de que é feito um testamento, se não de pura desesperança?

Se em breve não poderei mais brincar, ouso a atitude altruísta e corajosa de deixar meus brinquedos a outras crianças, que, quem sabe possam desfrutar deles num futuro sem guerra. Se dentro de pouquíssimo tempo estarei vestindo uma mortalha, deixo minhas roupinhas a quem possa usá-las um dia. A desesperança foi quem escreveu aquele testamento, mas o fez acompanhada da coragem que só pode vir das crianças. O Senhor da Guerra não gosta delas, e eu posso compreender o porquê. Senhores das Guerras são sempre covardes, eles jamais expressariam a grandeza de alma desses pequenos a quem ferem até a morte.

Os Senhores da Guerra estão sempre fora delas, escondidos em seus escritórios com ar condicionado e ódio. Os Senhores das Guerras usam seus jovens soldados como marionetes do horror e matam suas crianças feito animais indefesos.

Se uma criança foi capaz de escrever seu testamento, já é passada a hora de escrevermos o nosso. Nosso, coletivo, um testamento da humanidade, se é que ainda nos resta alguma.

O que deixaremos para as futuras gerações? Um rastro interminável de sangue e alguma indiferença? Como explicaremos para as futuras crianças aquilo que permitimos que fosse feito com essas? Só de pensar nessa situação, minha consciência me acusa de ter compactuado com todas essas atrocidades. Sim, compactuamos com todo esse horror, uma vez que não agimos para impedi-lo.

Depois que li, nas redes sociais, o testamento escrito pela menina, decidi que precisava, com certa urgência, escrever o meu também. Mas isso só depois de chorar um pouco aquilo que nos tornamos.

Ainda essa semana, li também que crianças estão marcando os nomes nas mãos para facilitar o reconhecimento, caso sejam alvo de bombardeios. Chorei mais um tanto. Chorar não muda nada. Escrever também não, mas ainda assim, é como se se não fizesse nenhuma dessas duas coisas, morresse. E pode parecer egoísta, mas não quero morrer, apesar de todo esse odor pútrido que me cerca. Não, eu quero viver, viver e ainda ser capaz de um dia vislumbrar um mundo sem mais guerras, sem mais crianças mortas, sem mais crianças tendo de escrever seus testamentos.

E por mais que isso soe contraditório, aqui vos deixo o meu:

 

Às crianças de todo o mundo,

deixo meus sonhos

e meu olhar mais curioso.

 

Aos jovens de todo o mundo,

deixo minha coragem

e minha gana por revolução.

 

Aos velhos de todo o mundo,

deixo minhas desculpas

por não ter sido a criança e a jovem

que um dia me idealizei.

 

Àqueles que ainda virão,

deixo minha esperança

e alguma poesia.

 

Ana Raquel Fernandes

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