Em um dos livros que minha escola adota, há um tema que proporciona sempre um bate-papo divertido em sala de aula: o das superstições. E é claro que, assim como os meus alunos desejam conhecer as crendices brasileiras – a de que mais gostam é a da “vassoura atrás da porta para enxotar as visitas chatas” –, também lhes indago a respeito das superstições japonesas. E aí vão algumas das mais curiosas que tenho aprendido com os meus pupilos:
1. Escrever o kanji (ideograma) de “hito”, palavra que significa “pessoa”, na palma da mão. Trata-se aqui de uma estratégia utilizada principalmente por artistas, durante apresentações ao vivo, para tirar o nervosismo diante da plateia. É semelhante ao “quebre uma perna” do teatro inglês, frase utilizada para atrair boa sorte. No entanto, vale frisar, não somente os artistas fazem uso de tal estratégia no cotidiano: alguns japoneses escrevem o kanji na palma da mão para não ficarem estressados com uma pessoa que sempre lhes causa mal (ah, se eu soubesse disso nos tempos de criança, durante as reuniões de família...).
2. Fechar bem a mão para nela esconder um objeto enquanto passa um cortejo fúnebre. E, nesse caso, serve o que tiver na hora: um chaveiro, um lenço etc. O importante é esconder o objeto na mão fechada até que o cortejo passe. Assim, acredita-se, nem você nem ninguém de sua família será o próximo a bater as botas. Roteiro de filme de terror, não é mesmo?
3. Cortar as unhas à noite é mau agouro. A expressão “yo tsume” pode ser interpretada da seguinte forma: a palavra “tsume” significa “unha”, mas, quando associada a “yo” (noite), pode também significar “cortar a vida” (esclarecendo, um mesmo vocábulo em japonês pode ter várias formas de escrita, mudando o sentido dependendo da combinação dos ideogramas). Desse modo, os japoneses acreditam que, cortando-se as unhas à noite, a vida dessa pessoa também se abreviará, podendo ir para a “cidade dos pés juntos” antes dos próprios pais. Mais uma para a série “Sadako”, enfim.
4. Proibição do uso do número “quatro” nas portas dos quartos de hospitais. O número quatro tem o kanji “shi”, associado a “shibô” (morte). O que faz com que, obviamente, não seja lá uma boa ideia colocá-lo em um ambiente hospitalar...
5. Cobrir o umbigo na hora de um relâmpago. Essa tem um propósito, digamos, um pouco mais medicinal. No Japão Antigo, acreditava-se que o relâmpago era um demônio que gostava de alimentar-se de “umbigos” – uma história criada talvez para fazer com que as crianças se protegessem contra os resfriados, cobrindo, pois, a barriga durante os temporais.
E aí? Não é mesmo um tema curioso o das superstições japonesas? Mas agora, perdoem-me a interrupção, tenho de suspender a crônica para atender uma visita. Onde diabos deixei a vassoura?
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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