Lembram-se daquela bela canção de Chico? “Quero ficar no teu corpo/ feito tatuagem”... Pois é... não no Japão.
Isso porque as tatuagens, tão valorizadas – que digam os jogadores de futebol e outras “celebridades” de nosso superficial mundo contemporâneo –, são um verdadeiro tabu por aqui.
Então, caros leitores, se resolverem dar um pulinho na Terra do Sol Nascente, escondam bem vossas tatuagens. Ir à praia até pode – apesar de que, dependendo da quantidade de tatuagens no corpo, possivelmente receberão algumas “frechadas” dos olhares japoneses ao redor.
Agora, caso queiram adentrar piscinas ou banhos públicos (os chamados onsens) –, lamento dizer, mas podem ir tirando o cavalinho da chuva. Ou, melhor dizendo, a tatuagem do corpo.
Há banhos públicos que aceitam tatuados? Sim. Outro dia, vi uma lista feita pela Revista Time Out de Tóquio a respeito dos onsens que dão o sinal verde para as tattoos; caso do Konparu-yu, no tradicional distrito de Ginza. Banho público que, aliás, é histórico – inaugurado em 1863, portanto ainda no Período Edo da história japonesa. Então, caso decidam esticar as pernas até o Japão, meus amigos e amigas tatuadas, sugiro que pesquisem os lugares mais apropriados para não darem com a cara na porta de um onsen qualquer da vida.
E os problemas que os tatuados enfrentam no país não se restringem aos banhos púbicos. Conseguir um trabalho é também um desafio. Tenho colegas europeus, por exemplo, que andam sempre com os braços cobertos – ou seja, usando camisas de mangas compridas até no verão, não importando se o termômetro esteja batendo os quarenta graus centígrados.
E eles estão para lá de certos, vale frisar; pois, agindo assim, estão respeitando as regras morais do Japão, que, na maioria das vezes, valem muito mais que as leis escritas. Se tatuagens não pegam bem por aqui, o melhor mesmo é não bancar o rebelde ou encrenqueiro e garantir assim, caladinho, o pão do dia a dia.
Bom, mas qual seria o motivo das tatuagens serem tão malvistas na Terra do Sol Nascente? Yakuza, claro. Ainda que, diga-se a verdade, o simbolismo e a beleza artística, presentes no irezumi (um dos termos em Japonês para a palavra tatuagem) dos membros da Yakuza não podem de modo algum ser confundidos com as tatuagens baratas (em sentido amplo) observadas nos corpos dos que se acham “bacanas” hoje em dia.
Até porque a tatuagem da Yakuza sequer cobre o corpo inteiro – por exemplo, jamais o pescoço e as mãos. Tais tatuagens são feitas realmente é para serem ocultadas para a sociedade e conhecidas apenas pelos membros do grupo a que o indivíduo pertence. São códigos, portanto, de um significado profundo, quase que religioso. E não um festival de pinturas sem sentido de gente que acha que está passando uma mensagem riscando o próprio corpo... Aliás, não raras vezes, ainda com erro gráfico!
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quinhentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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