Sei que os leitores esperam que, neste espaço, eu escreva sempre a respeito do Japão; mas hoje permitam-me um pouco de liberdade temática. Sim, venho aqui, cinéfilo que sou, dar a minha opinião sobre a polêmica cerimônia do Oscar de 2022. Mas não, eu não vou ficar dançando ao redor nem levantando falsas bandeiras em relação ao que não passou de uma briga de egos: originada por uma piada horrorosa que, por sua vez, gerou uma reação violenta e absurda. Uma cena bizarra, enfim, que transformou a já agonizante festa do Oscar em um verdadeiro circo de horrores.
Não, o tapa que me chamou mais atenção não foi o desferido pelo desequilibrado Will Smith no decadente “comediante” Chris Rock. O tapa que mais me incomodou foi o que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, com o objetivo de agradar esse ou aquele grupo, deu mais uma vez em todos aqueles que, como eu, amam o cinema tradicional: tratando com desrespeito não somente o público, mas profissionais que realmente fizeram algo pela Sétima Arte. Tomemos como exemplo o Oscar Honorário: Samuel L. Jackson tendo a carreira “minimizada” na boca de uma das mestres de cerimônia; enquanto Liv Ullmann, Elaine May e Danny Glover foram apenas brevemente mencionados. E o que dizer da parte do memorial? William Hurt, um dos maiores atores de cinema que já foram premiados pela Academia, apenas brevemente aparecendo no telão – mas a patrulha do politicamente correto proporcionou mais tempo para Betty White, que, apesar de grande atriz, significou mais para a tevê do que propriamente para Hollywood.
Houve coisas boas na festa? Sim, alguns resultados – meu favorito “Belfast” finalmente premiou Sir Kenneth Branagh, e “Drive my Car” trouxe mais um Oscar para o Japão –; além, claro, do comovente discurso de Troy Kotsur. Falando em discursos, a Academia, aliás, também desrespeitou o momento de celebração do diretor Ryusuke Hamaguchi, interrompendo sua fala bem no início e praticamente o forçando a deixar o palco o mais rápido possível. Deveriam ter expulsado era o “King Richard”, que usou cinco minutos para ficar com chororô, tentando justificar o injustificável.
O fato é que, por essas e outras forçações de barra inventadas para agradar – sim, vou usar o termo – a “turma do mimimi” (que certamente, se lerem, vão querer cancelar também o meu texto), os produtores estão matando aos poucos a magia da maior festa do cinema. E isso também em muitos resultados. Por exemplo, nada contra “CODA”, que achei emocionante, mas, como narrativa cinematográfica, “Belfast” é um filme muito mais significativo. Se tivesse visto, provavelmente também torceria por “The Power of the Dog”, mas francamente não curto Netflix (para mim, o que não é exibido no cinema não pode ser classificado como tal) – um ponto que, felizmente, ainda coincide com o pensamento de muitos membros da Academia...
Pronto, falei mais que o Will Smith achando que era um “rio para o seu povo”: agora, dou minha cara a tapa!
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de dez livros, sendo o mais recente “Contos de um Brasil Esquecido”, lançado pela Editora Folheando (Pará), e finalista do Prêmio Uirapuru. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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