Certa noite, despertei com um estranho barulho em frente ao meu prédio. Curioso, abri a janela e vi um grupo de jovens imitando o ruído de uma motocicleta, ao mesmo tempo em que suas mãos faziam os movimentos próprios de quem estivesse acelerando o referido veículo. Ou seja: havia os motoqueiros; mas não as motocicletas! Tudo o que o grupo fazia, portanto, era correr de um lado para o outro guiando suas motos imaginárias. Tentando, então, compreender a cena que eu presenciava, perguntei a minha esposa se já havia visto algo semelhante. Foi quando ela respondeu que, recentemente, no Japão, têm surgido esses tipos de gangues – que, para evitar maiores problemas com a polícia local, preferem não usar motocicletas verdadeiras; quebrando, pois, o silêncio das ruas apenas reproduzindo o som do veículo.
Confesso que, na ocasião, achei tudo muito louco e, em seguida, dando uma risadinha, voltei a dormir. Mas, posteriormente, lembrando-me do ocorrido, comecei a achar interessante aquela cena de “sutil rebeldia”: uma tática, aliás, bastante usada pelos japoneses para desafiar certos padrões de comportamento. Afinal, sendo um país onde, tradicionalmente, valoriza-se a coletividade sobre o individualismo, o “ser diferente”, nem que seja em um pequeno detalhe, acaba mesmo sendo um ato de ousadia.
Uma rebeldia que, sim, pode até parecer pueril ao nosso olhar ocidental – acostumado a formas de protesto, digamos, gritantes –, mas que, para os japoneses, funciona: pelo menos, como um alívio para o estresse. E aqui, permitam-me citar outro exemplo para além dos motoqueiros: o do comportamento de alguns japoneses durante os nomikais (reuniões, após o expediente, em que os empregados e os patrões vão, juntos, para um bar ou restaurante a fim de celebrar alguma ocasião especial da empresa). Depois de umas doses, há trabalhadores que, em frente dos chefes, protestam amarrando a gravata na cabeça como se fosse uma bandana. Isso porque, para alguns japoneses, a gravata seria uma espécie de “coleira para cães” – representando, pois, a submissão às empresas, que, não raramente, fazem com que os empregados passem 12 ou 13 horas por dia no local de trabalho (e isso inclui alguns sábados); sacrificando momentos preciosos de suas vidas privadas. Assim, o protesto da gravata seria um modo de o funcionário dizer indiretamente aos chefes: acabou o expediente e estou livre dessa maldita coleira!
Motoqueiros sem motocicletas; empregados usando gravatas na cabeça; ou ainda os cabelos multicoloridos da juventude... Como podem ver, mesmo na sociedade japonesa – caracterizada pela obediência do indivíduo ao consenso do grupo –, a rebeldia existe. E resiste. Porque ser rebelde é, sobretudo, uma necessidade humana.
EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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