A altura da porta sempre a incomodara, dava a impressão de que era possível um pequeno roedor passar por debaixo da larga fresta, talvez não um roedor, mas qualquer outro bicho nojento. Mas também, pela bagatela que pagava pelo aluguel do apartamento, ela não podia esperar por nada melhor.
- Venha, me acompanhe, o apartamento fica no terceiro andar. Você vai adorar, é ótimo! Os vizinhos são, na sua maioria, senhores e senhoras, gente muito boa e prestativa, viu? E além do que, três andares para uma jovem como você não são nada, não é? – Dizia a corretora, já meio sem fôlego, não sei se por conta das escadas ou da falação em meio à qual subia.
A cabeça dela rodava, muita informação, muito pouco tempo para decidir se ficaria ali ou não. Para ela, apesar da urgência em conseguir um lugar onde ficar, um lar precisava ser no mínimo, decente.
- Ótimo, pode se mudar na semana que vem! – Disse a corretora, em meio a um sorriso cansado, seu sobrepeso certamente não a tinha ajudado na tarefa de alugar aquele velho apartamento no terceiro andar do Edifício Dolores. É, até mesmo o nome era sofrido.
Ela permaneceu lá por uns bons vinte minutos depois de a corretora alegre e gorda deixar o local. Fechou a porta, bloqueando a curiosidade dos velhos moradores para a nova figura que se instalaria ali. Sentou-se no chão, chão sujo, diga-se de passagem. A corretora nem ao menos se preocupara em deixar o ambiente um pouco mais apresentável...
Sentou-se no chão e ali ficou contemplando aquele pedaço de chão que passaria a chamar de lar. O vazio de tudo a incomodava, nenhum móvel, nenhuma planta, nem cortinas havia ainda, mas o exercício de imaginar como aquele ambiente ficaria, quando, aos poucos, ela o fosse ornamentando e enchendo de vida foi suficiente para entretê-la por esse breve espaço de tempo.
Seus olhos grandes e claros percorreram inúmeras vezes a planta do local, até que, surpresos encontraram-se com a fresta da porta, quando finalmente se levantou para sair. Muito larga! – pensou. Vou precisar dar um jeito nisso.
Nunca deu. Sozinha, morando pela primeira vez na cidade grande, cursando a universidade, quando é que ia arrumar tempo e dinheiro para a empreitada de substituir a porta? O medo de algum animal adentrar ao seu lar nunca passou, mas por vezes foi esquecido ou simplesmente substituído por medos maiores, bem maiores que a fresta da porta, maiores que ela mesma.
A solidão a incomodava, assim como o excesso de gente. Era uma alma sensível, presa a um corpo jovem e uma mente inquieta. Não ter tanto contato com a família como outrora mexia com ela. Claro que tinham senhorinhas do prédio, sempre tão gentis quanto bisbilhoteiras, e não sei ao certo se eram mesmo gentis ou a gentileza não passava de pretexto para escarafunchar a vida da menina, como elas gostavam de chamá-la.
Até mesmo os pães quentinhos, vez por outra por elas oferecidos, trazidos em pratos de louça antiquíssima e sempre cobertos por panos de prato com beiradinhas feitas de crochê, podiam não passar de pretextos para investigar a vida da solitária menina, que, sempre muito tímida agradecia a gentileza, mas nunca as convidava a entrar. Que decepção! Não dava nem para ver se o lugar estava arrumado...
Saía cedo e voltava à noite, era tudo o que se sabia sobre ela. Ah, e que também nunca atrasara um mês sequer do aluguel. Será que os pais mandavam dinheiro para ela? Muito provável, porque nem se sabe se ela trabalha e onde... E namorado? Moça estranha essa, nunca traz ninguém pra cá. Será que é lésbica? Ué... ‘tá’ na moda hoje em dia, Deus que me perdoe, mas ‘tá’ na moda!
E ela, sempre atarefada, às voltas com os estudos e com o trabalho, porque sim, ela trabalhava na própria universidade onde estudava. Sempre tentando dar conta de tudo, aos seus 20 anos de idade. Sempre sorrindo nas escadas, a cada bom dia ou boa noite. Sempre agradecendo os pães e a especulação. Sempre tentando manter a dieta e o contato com a família, sempre lutando contra a maldita depressão que a acompanha desde a infância. Sempre incomodada com a largura da fresta da porta. Sempre com medo de sentir mais medo que o necessário. Sempre tão sozinha e tão cansada, cada vez mais cansada.
E agora, que nem sair mais podia? As aulas da universidade passaram a ser realizadas a distância, assim como seu trabalho. Não havia mais o caminho ao trabalho, agora, até mesmo os pães interesseiros cessaram de chegar, porque as senhorinhas, depois de muita briga e discussão com os seus, decidiram que o melhor na idade delas era mesmo não pôr os pés para fora de casa. Bom, pelo menos não tinha mais a chateação de atendê-las com sorriso e gratidão forçados.
Agora, estavam sós: ela e seus pensamentos. E a fresta da porta, a enorme, incômoda, horrorosa fresta da porta, se não a arrumara antes, agora, impossível. A restrição de circulação de pessoas estava vigorando em todo país, o isolamento social era no momento a melhor alternativa a fim de se evitar o aumento vertiginoso de pessoas infectadas pelo novo vírus.
Ela sempre vivera sua própria espécie de isolamento social, mas agora havia uma ameaça lá fora, além das que sempre a rondaram por dentro.
- Meu Deus! – disse a jovem que voltava para o apartamento dos avós, após fazer supermercado pros velhinhos. O que é aquilo saindo debaixo daquela porta? É sangue? É sangue?
A fresta da porta era de fato muito larga, tão larga que permitiu que seu sangue todo passasse por ela, mesmo depois de grosso, gelatinoso, no seu estado de coagulação. Ela devia mesmo ter mandado trocar aquela porta. Devia também ter tido tempo de ir ao supermercado antes da pandemia e comprado lâminas de barbear novas, assim não sofreria tanta força para romper a pele dos punhos. Talvez, com um corte mais preciso e fundo nem precisasse esperar tanto para todo o sangue se esvair.
Mas não trocou a porta, nem comprou lâminas novas. Não se fez notar além do interesse especulativo de velhas senhoras mexeriqueiras, que não sabiam de fato nada sobre ela. Ninguém nunca soubera de sua dor, e de como precisava de ajuda muito mais que de pães caseiros e mexericos maldosos.
Não fosse a fresta larga, absurdamente larga da porta, talvez demorassem muito mais para saber de sua morte também. Roedores pequenos podiam adentrar por aquela maldita fresta, mas foram seus medos todos que adentraram, fizeram morada nela, até que tudo teve um fim.
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