Agulhas
Eu estou virando uma senhorita alternativa, se é que já não era. Mas o fato é que agora ando numa onda de tudo alternativo, alimentação alternativa, claro que dou umas escapadinhas, que ninguém é de ferro, né? Mas procuro seguir aquele lance de “desembrulhe menos, descasque mais”, e... Medicina alternativa também. Ando me entregando às agulhas, literalmente. E agora já nem chamaria mais a acupuntura de “alternativa”, alternativa devia ser a tida como medicina convencional, que alimenta a multimilionária indústria de medicamentos e nos entope de substâncias, cujos efeitos colaterais quase sempre nos levam a ter de consumir outras tão ou mais nocivas drogas.
As agulhas, ah, elas nunca me puseram medo, pelo contrário, sempre exerceram sobre mim alguma espécie de fascínio, e depois da primeira consulta com a doutora, fiquei apaixonada pela medicina chinesa.
Tenho adorado ver e sentir vários pontos do meu corpo invadidos sutilmente por elas. E a doutora tem precisão e delicadeza igualmente cirúrgicas. Adoro as agulhas e o que elas proporcionam.
Ando até pensando em fazer uma tatuagem, aliás, penso nisso há algum tempo já. Talvez eu vire uma velhinha bem descolada ainda.
E foi no caminho para a sessão de acupuntura, entre um pensamento ansioso e outro, do tipo: será que vai ter onde estacionar?... Parada no sinal vermelho, ao olhar pro lado, que me deparei com um tecido pendurado numa janela, com os dizeres “Tudo passa, tenha fé”.
Legal, pensei, alguém se deu ao trabalho de deixar uma mensagem aos transeuntes. Bacana, mesmo o imperativo do verbo me incomodando um pouco quando se trata de fé. Mas, em plena pandemia, acho mesmo que a ideia é válida.
É, pensei, tudo passa. Tudo, absolutamente tudo. A dor e a alegria, e aí surgem novas alegrias e novas dores, mas são diferentes, porque viver é mesmo uma eterna novidade. Viver é uma loucura tão bonita e desesperadora quanto é, para alguns, a morte.
Tenho aprendido a encarar a vida com mais leveza, não sei se por mérito da leveza das mãos santas da doutora, se por mérito meu ou ambas as coisas. Mas o fato é que é tudo mesmo transitório demais para gastar minha energia remoendo o que agora é, e em questão de segundos deixou de ser.
Eu sou e estou aqui no momento presente, passarei também, como passam todas as coisas, mas nesse breve intervalo entre ser e ter sido, estou ousando curtir a viagem.
E um dia, quando as agulhas e as agruras da vida já tiverem passado e só restar meu corpo inerte, ele também passará e eu voltarei a ser o que sempre fui em essência: poesia!
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