É bem verdade reconhecer o quão há, como dizem, a existência de “dois pesos e duas medidas”. Não faltam exemplos em nosso cotidiano, mesmo no âmbito da justiça, no qual – teoricamente – essa premissa não deveria ser aplicada, que reiteram e reafirmam injustiças, desigualdades e demarcam que, a depender que quem se trata e da intencionalidade em curso, há sim diferenças no trato.
Os atuais e persistentes atos antidemocráticos – que pedem clemência as Forças Armadas para salvaguardar o país que sucumbiu a um perigo imaginário, intervindo num pleito legítimo – além de inconstitucional, talvez representem, na realidade, muito mais o desespero de quem não poderá ser – ao menos explicitamente – o que se é de fato, algo que deve – ou deveria – ser tratado muito mais enquanto uma ação criminosa, do que, por vezes, como liberdade de expressão, ou ainda algo no espectro da loucura.
Não há nada de patológico nisso, tendendo a diminuir o que crime que cometem. São, em grande parte, pessoas centradas em si, que ficaram mal-acostumadas com a chancela do futuro ex-presidente do país ao que é repudiável ou criminoso; empoderadas a acreditar que estão acima de tudo e de todos. Assim como parece crer o próprio mandatário da República, onde o “Estado sou eu”, em alusão ao rei francês Luiz XIV, servindo-se dos seus próprios mandos e desmandos. Como no uso desmedido e explícito da máquina pública em busca de sua reeleição com a compra escancarada de aliados, seja via orçamento secreto ou ampliação de benefícios sociais à população.
Aos olhos de alguns isso não incomoda. Como não incomodou a irresponsabilidade, ingerência, deboche e descaso do chefe do Executivo no trato à pandemia; como não se incomodam com a fome, o subemprego e a precarização da vida – onde se naturalizam e toleram ações criminosas, inconstitucionais e antidemocráticas se beneficiarem a si, que reforçam a indiferença, o preconceito, a violência, intolerância e a bases estruturais de um país retrogrado, conservador e desigual.
A tensão que paira no ar, acreditem, é o incômodo do mercado com a suposta ênfase do futuro governo no combate à fome. Pessoas que vivem de renda especulativa – e agregados que almejam esse lugar – repudiam direitos humanos, não reconhecem a Constituição Federal de 1988, limitam-se a manter seus privilégios, interesses e são incapazes de se solidarizar com o sofrimento alheio, às vezes pela via caritativa.
É no mínimo imoral o silêncio de parte da grande mídia, do sistema judiciário, do parlamento e de parcela da própria sociedade ao estrago que governo federal deixará, bem como as tormentas que ele causou; sem falar da tentativa sórdida em construir uma narrativa de “deixa pra lá”, “já passou”, “ninguém lembra mais”, ao ousar conceder suposta anistia ao atual chefe do Executivo face a responsabilização por seus atos, tolerável já que suas pautas foram atendidas.
Jamais esqueceremos, nem desejamos vivenciar novamente essa terrível tempestade. Também não ficaremos calados, apáticos ou anistiaremos a destruição feita pelo governo (ainda) vigente – como dito por Dom Paulo Evaristo Arns em “Brasil Nunca Mais” (livro escrito clandestinamente entre 1979-1985, que denunciou as barbáries que ocorreram durante os anos de chumbo) “para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”.
Há muito a ser feito sim, em especial num país que imprime um olhar caso a caso e constrói narrativas distintas a depender de quem se trata, o que reafirma ainda mais as injustiças presentes, os privilégios construídos e reitera nossas desigualdades estruturais – de raça/etnia, classe, gênero...
Mas temos sede de mudança e de justiça, que se guia pelo brilho em nosso olhar, pelo desejo que pulsa num coração que sangra e pela lucidez e coragem necessárias, que toda luta exige, assim como o líder cubano Che Guevera: “se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros”.
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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