Independentemente se você é a favor da Monarquia Britânica ou não, uma coisa é inegável: a morte da Rainha Elizabeth II comoveu o mundo. E isso se deve, entre outros fatores, ao imenso carisma que possuía a soberana – e não somente entre os seus súditos. Uma dama inglesa no sentido lato da expressão, que, com elegância e firmeza, comandou uma das mais poderosas nações do planeta durante sete décadas – um feito que, por si só, já merece toda a nossa admiração e respeito.
E é exatamente sobre esta última palavra que trata a crônica de hoje: RESPEITO. Um sentimento partilhado por ingleses e japoneses em relação a suas respectivas monarquias. Sentimento este que nós, oriundos do “novo mundo”, não conseguimos compreender de forma plena, por mais que tentemos – e isso pelo simples fato de não havermos sido educados em países monárquicos.
Lembro-me, por exemplo, de um episódio de 2007. Minha esposa e eu havíamos sido convidados pela empresa em que eu trabalhava para assistir às finais de sumô, em Tóquio. Um pouco antes dos lutadores adentrarem a arena, vi que todos os japoneses levantavam-se de seus assentos (e nós estrangeiros, claro, fomos na onda) para aplaudir um casal que estava na tribuna de honra. Tratava-se do então Príncipe Naruhito (hoje Imperador) e da Princesa (hoje Imperatriz) Masako. E, enquanto os aplaudia, olhei para minha esposa, notando em seu rosto uma seriedade verdadeiramente respeitosa por aquele casal. E de modo algum o olhar de minha amada trazia o entusiasmo próprio dos fãs ao verem uma celebridade qualquer. Não. O olhar de minha esposa espelhava simplesmente um respeito (aliado a um senso de gratidão) por aquela família, cuja existência tinha o poder de unir um país inteiro.
Ou, pelo menos, assim me pareceu. Porque, como mencionei acima, torna-se muito difícil para um “filho da República” como eu traduzir em palavras o sentimento de reverência que testemunhei por meio do olhar de minha esposa naquela tarde de 2007. Reverência esta que, vale frisar, voltei a testemunhar, agora em 2022, no olhar de meus colegas de trabalho ingleses ao falarem da perda de sua Rainha.
Sendo bem sincero, creio mesmo que esse sentimento de reverência é algo que jamais poderá existir em relação a um presidente. Já a Rainha Inglesa, por sua vez, era respeitada e admirada igualmente por trabalhistas, conservadores e até separatistas. Como também são respeitados e admirados, por aliados e opositores, os membros da Família Imperial Japonesa. Um presidente, ao contrário, por mais carismático que seja, não consegue ter esse poder de gerar o mútuo respeito entre ideologias divergentes. Ao contrário, a figura de um presidente é divisiva. Um ser comum, enfim, que, a cada quatro ou cinco anos, tenta vestir-se de soberano – para acabar como palhaço.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal, é autor de dez livros, sendo o mais recente “Contos de um Brasil esquecido”. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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