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Meio Ambiente

SIMBiOSE e Rede de Sementes do Xingu: conheça as ações em prol do presente e futuro do planeta

Em 19 de agosto de 2019, o dia virou noite em São Paulo. Segundo análises realizadas por cientistas, o evento ocorreu devido às queimadas de florestas do Centro-Oeste e Norte, envolvendo o estado do Mato Grosso e Paraguai, alcançando partes do Mato Grosso do Sul, Rondônia e Bolívia. Fatores históricos como este são capazes de fazer com que a sociedade perceba que nenhum ser vivo está isento das consequências causadas pelas mudanças climáticas, mesmo que muitos sofram mais do que outros. Atualmente, em 2021, dados do Deter, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) revelam que o desmatamento na Amazônia cresceu 43% em relação a 2015, batendo recorde mais uma vez. Quais são as ações possíveis para que possamos mudar este cenário difícil? E para além do pensamento, quem já está agindo?

Além do que acontece em território amazônico, também existem outros focos de desmata-mento espalhados pelo Brasil. A associação SIMBiOSE (Serra do Itapetinga Movimento pela Biodiversidade e Organização dos Setores Ecológicos) surgiu em meados de 2005, inicialmente como uma solução para diminuir os focos de incêndio que ocorriam em alguns locais da Serra do Itapetinga, uma grande área preservada localizada no estado de São Paulo e que abrange os municípios de Atibaia, Bom Jesus dos Perdões, Mairiporã e Nazaré Paulista, abrigando uma enorme e importante biodiversidade. Com o passar dos anos, a associação ampliou suas ações para além do combate aos incêndios, também voltando a atenção para a articulação política e realização de projetos, como o ordenamento do uso da Pedra Grande e a gestão compartilhada no parque da Grota Funda, ambos em Atibaia.

Incêndio na Pedra Pequena - Acervo Vinicius de Zorzi

 

Os incêndios causados em florestas podem ser divididos em dois tipos: os naturais, que são os mais raros; e os criminosos, que se separam entre culposo e doloso. “A maior parte dos incêndios aqui na área onde a gente atua (e no Brasil inteiro) são incêndios que ocorrem quando há intenção, quando não foi um acidente” afirma Vinicius de Zorzi, diretor da SIMBiOSE desde 2016. Segundo ele, nos últimos quatro anos, a associação combateu 174 incêndios, o que significa uma média de 45 incêndios por ano, dentro de uma área de aproximadamente sete mil hectares. Mesmo sendo uma área protegida, a Serra do Itapetinga ainda sofre com as ameaças de especulação imobiliária e com o descuido de turistas, o que torna a atuação da SIMBiOSE no local ainda mais necessária.

“O que mais me acalenta depois de uma ação de combate a incêndios é quando encosto a cabeça no travesseiro. Estou todo quebrado, mas minha alma ‘tá’ limpa”, conta Vinicius. Ele ainda explica que a nossa sociedade prega a preservação por motivos econômicos, mas não concorda com isso e possui uma relação de ordem espiritual com o que faz. “Mais do que a necessidade de conservação da natureza para efeitos econômicos, vem esse relacionamento quase que espiritual”, afirma.

CAMPANHA DE ARRECADAÇÃO

Diferentemente dos outros coletivos ou associações que existiram anteriormente na região, as ações da SIMBiOSE possuem continuidade e não estão nem perto de acabar. Atualmente, o trabalho é realizado por voluntários, mas a intenção é criar pelo menos um núcleo remunerado. Além disso, a associação mantém uma campanha recorrente de arrecadação por meio do site Benfeitoria, aceitando doações a partir de R$20,00. Para colaborar, acesse: https://benfeito ria.com/simbioseatibaia.

Cerrado Atibaia - Acervo Vinicius de Zorzi

 

ECONOMIA COM A FLORESTA EM PÉ: REFLORESTANDO COM SEMENTES

Ainda falando de ações e pessoas que têm agido para mudar o nosso cenário ambiental, outra iniciativa que se destaca é a Rede de Sementes do Xingu, localizada no estado do Mato Grosso. Assim como a SIMBiOSE, ela surgiu por meio da busca por uma solução para o desmatamento desenfreado. Em 2004, ocorreu o 1º Encontro Nascentes do Xingu, em que entidades tentavam decidir qual seria a ação mais apropriada para solucionar o avanço da destruição que acontecia nas nascentes e cabeceiras do Rio Xingu, que ficam fora do território indígena. O Parque Indígena do Xingu é como uma ilha de florestas em meio à monocultura, sendo que o estado do Mato Grosso é considerado o maior produtor de grãos do país e também campeão no uso de agrotóxicos. No segundo encontro, em 2008, ocorreu a 1ª Feira de Iniciativas Socioambientais. Foi quando os indígenas desafiaram o ISA (Instituto Sócio Ambiental) a trabalhar com reflorestamento de nascentes e fiscalização na beira do rio, juntamente com os produtores do entorno. E assim surgia a Rede de Sementes do Xingu.

Em seus 13 anos de existência, a iniciativa reúne 568 coletores, dentre eles, indígenas, camponeses e urbanos, e já recuperou mais de 6,6 mil hectares de áreas degradadas na região da Bacia do Rio Xingu e Araguaia e outras regiões do Cerrado e Amazônia, além de gerar renda que é repassada diretamente para as comunidades, resultado da comercialização de sementes para produtores, barragens, etc., que buscam minimizar seus impactos no meio ambiente. Para o jovem ativista ambiental Ore-me Ikpeng, tudo isso é só o começo. Ele é indígena do povo Ikpeng, vive na Aldeia Moygu (uma das aldeias do Xingu) e trabalha como técnico de agroecologia da Rede de Sementes do Xingu, mas no início era de sua responsabilidade liderar a coleta de sementes nas florestas. “Os indígenas conhecem a dinâmica, porque eles vivem por experiência a ciência”, explica. Dessa maneira, o ISA propôs uma parceria entre aldeias indígenas e UFsCar para reflorestar por meio de “muvuca”, uma mistura de sementes e grãos de areia que são colocadas na plantadeira e lançadas na terra. Vale lembrar que o reflorestamento é feito com o uso dos mesmos maquinários que, em outro momento, serviram para a produção de monocultura.

Oreme Ikpeng trabalhando com sementes - Foto: Guaíra Maia (ISA)

 

AS MULHERES YARANG

Outro fruto da Rede de Sementes do Xingu foi a formação do grupo de mulheres coletoras Yarang, palavra que traduzida para o português significa “formiga cortadeira”, e não poderia existir uma analogia melhor. As Yarang, também de etnia Ikpeng, se reúnem, entram na mata, colhem as sementes e beneficiam toda a comunidade, assim como as formigas quando colhem as folhas.

Tanto a Rede de Sementes do Xingu quanto o grupo de mulheres Yarang se tornaram referência e inspiração para a formação de outras redes de sementes, sendo grandes e-xemplos de preservação am-biental no Brasil. Em 2020, a Rede de Sementes do Xingu ganhou o prêmio internacional Ashden Awards, concedido pe-la Ashden, organização basea-da no Reino Unido que dá visi-bilidade e apoio a iniciativas inovadoras no campo do clima e energia em todo o mundo.

“Não faça coisas que são só para o seu benefício, plante coisas que podem ser colhidas por outras pessoas, plante coisas que podem beneficiar outras pessoas no futuro e no presente. Parar de pensar em eu, minha, e falar em nós, nosso”, conclui Oreme, com um conselho direcionado aos jovens, mas que, na verdade, serve para todos que vivem em nosso planeta.

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