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SUB-VERSÃO

Setembro

Todo ano, eles esperam diligentemente por sua vez. Até que se aproxime setembro, seguem tímidos, quase ignorados pelos transeuntes. Silenciosos, resignados de sua espera, não reclamam, não maldizem aqueles que passam apressados e não lhes reconhecem a beleza implícita.

O médico estava atrasado. Já estávamos no período da tarde, quando ele ainda chamava por pacientes agendados para o período da manhã. A sala de espera cheia, olhares cansados, pernas inquietas, óculos embaçados pelas máscaras. O que teria levado cada uma daquelas pessoas àquela espera? Por quanto tempo já teriam elas esperado por um diagnóstico, por uma palavra, pelo alívio da cura?

Silencioso, tímido e resignado feito eles, um senhor numa cadeira de rodas também esperava, talvez uma espera diferente...

Os olhos fechados, braços apoiados no colo, de uma rigidez que fazia força a uma de suas acompanhantes, quando havia necessidade de movê-los. Pés apoiados num travesseiro, cuja fronha florida também me lembrou daqueles que esperam por setembro para florir.

Estaria dormindo? Estaria ouvindo o murmurinho da gente reclamando da espera? Estava de fato ali? Afinal, se seus nervos enrijecidos o impediam de movimentar-se, talvez a alma já estivesse liberta há tempos...

Talvez estivesse visitando a esposa muito querida. Ouvi a filha comentando que ela falecera há algum tempo e, desde então, sua saúde piorara muito. Saudade é doença perigosa, não há neurologista que ache cura. Saudade se alimenta do outro... É, talvez ele estivesse com ela, porque apesar de toda rigidez de seus músculos, seu semblante era sereno.

Talvez só estivesse mesmo esperando setembro chegar.

A filha esperava, com a mesma serenidade resignada daqueles que esperam para florir, o momento em que ele abriria os olhos. Vez ou outra, com a paciência que só tem quem ama, as filhas juntas, arrumavam-lhe a posição dos pés, o travesseiro sobre o qual eles estavam apoiados e também, com muito custo, os braços, rijos, quase imóveis, a fim de que não ficassem em posição desconfortável.

Setembro chegou para ele. Finalmente, o médico, nitidamente exausto, chamava seu nome. Cesário.

Setembro ainda não chegou para os ipês, mas porque já se aproxima, sua beleza já inunda os olhos mais atentos.

E porque souberam esperar, e é o que o amor sabe fazer de melhor, estou certa de que Seu Cesário e sua esposa estão agora dançando (sim, ele está liberto da rigidez de seus nervos), sob a sombra de um esplêndido, amarelo, divino ipê.

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