A irresponsabilidade na criação de conteúdo pode ser fatal para uma pessoa com tendências suicidas
No último dia 10, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o Conselho Federal de Medicina (CFM), bem como profissionais e sobreviventes, celebraram o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. O “Setembro Amarelo” entrou no calendário nacional em 2013 e hoje é a maior campanha antiestigma do mundo. Embora este seja um problema de saúde pública, apenas 38 países são conhecidos por desenvolverem estratégias de prevenção ao suicídio no mundo.
Ao Jornal Em Dia, a psicóloga clínica, especialista em Saúde Mental e Clínica Psicanalista com Crianças e Adolescentes, Adriana Malta, explicou que existe muito preconceito com as doenças mentais e que o suicídio ainda é um tabu para a maior parte da sociedade. Conclusão semelhante revela o site oficial da campanha na internet, que afirma que “praticamente 100% de todos os casos de suicídio estavam relacionados às doenças mentais, principalmente não diagnosticadas ou tratadas incorretamente”.
No entanto, a especialista destaca: o suicídio é multifatorial, ou seja, para abordar o tema, é preciso levar em consideração outros fatores, como os sociais e econômicos. “O gatilho pode ser um momento de desespero de um sujeito que vem passando por tempestades há tempos. Depressão é, em sua maioria, o transtorno mais frequente em se tratando de saúde mental. Depois, temos os transtornos afetivos bipolares, a dependência química e os transtornos de personalidade, como o Borderline”.
ROMANTIZAÇÃO DO SUICÍDIO
Para Adriana, o grande perigo mora na “romantização” do suicídio por parte da mídia de massa, em especial na produção de conteúdo voltado para o público jovem, que é também aquele que mais atenta contra a própria vida. Um exemplo desta problemática é a série 13 Reasons Why (Os 13 Porquês - tradução livre), lançada pelo serviço de streaming Netflix, em 2017, baseada no livro homônimo do escritor Jay Asher. O seriado foi associado a um aumento nos casos de suicídio entre adolescentes, muitos deles imitando inclusive o “modus operandi” da personagem Hannah.
Vale destacar que esse “suicídio contagioso” não é fruto da tecnologia, mas da irresponsabilidade para com a temática: já em 1774, o livro “Die Leiden des jungen Werthers” (Os sofrimentos do jovem Werther), do alemão Johann Wolfgang Von Goethe, causou polêmica semelhante. A obra, que narra a história de um amor impossível, bem como o suicídio do protagonista, esteve diretamente associada a uma onda de mortes na Europa no século XVIII, batizada, posteriormente, de “Efeito Werther”.
Em ambos os casos, a questão é a mesma: a banalização do assunto, tratado como se fosse uma consequência óbvia dos infortúnios da vida e dos amores não correspondidos, sem nunca apresentar, de fato, soluções para o problema. “É preciso não dramatizar ou romantizar o tema. Quando falar sobre, deve-se articular informações e alternativas, como o Centro de Valorização da Vida (CVV), orientar sobre procurar ajuda e falar sobre sua dor [...] Os maiores vulneráveis e o maior grupo de risco são os adolescentes. Morrem mais adolescentes por suicídio que por qualquer outra coisa”, afirma.
“A VIDA É A MELHOR ESCOLHA”
Antes de qualquer atitude, é importante não ter preconceitos com relação ao tema e estar sempre atento aos sinais da mente. Malta explica que as pessoas devem buscar ajuda quando não estão bem consigo mesmas num prazo de pelo menos dois meses: angústia, falta de prazer, choro fácil, falta de energia, insônia ou excesso de sono e isolamento social são alguns indicadores de que está na hora de buscar auxílio de um especialista.
Mas não se engane: o suicídio precisa ser trabalhado por todos, sendo profissionais da Saúde ou não. O apoio pode ser fundamental: “Se você tem um amigo e ele está chateado, mal-humorado, triste, e passa uma semana, um mês, e ele está do mesmo jeito, é o hora de chegar e perguntar: ‘como você está?’ E aí você abre espaço pra essa pessoa falar”.
Incentivar a buscar tratamento e mostrar interesse são ações que proporcionam conforto e confiança para alguém com tendências suicidas ou problemas psicológicos. Contudo, vale destacar que nem sempre a pessoa que comete suicídio dá sinais públicos de que está passando por uma crise. Por isso, é extremamente importante ter consciência de que esses pensamentos nocivos têm tratamento e que “a vida é a melhor escolha”, como diz o lema da campanha em 2022.
“É preciso desenvolver uma sensibilidade que nos possibilite construir uma escuta e um olhar que detecta os sinais de dor psíquica. Dor psíquica é dor na alma e dor na alma, mata. O suicídio é um problema de saúde pública e as unidades precisam capacitar suas equipes para prover comunidades de apoio e cuidados. SUS (Sistema Único de Saúde) e SUAS (Sistema Único de Assistência Social) juntos, sempre”, conclui Adriana.
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