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Crônicas de um Sol Nascente

Sensou nani?

Ao escutar minha esposa e eu conversando a respeito da invasão russa à Ucrânia, meu filho, de apenas três anos de idade, perguntou-nos em japonês: “Sensou nani?”. O que, traduzido, significa: “O que é guerra?”.

A pergunta, claro, deixou-nos momentaneamente sem palavras. Como explicar para uma criança o que exatamente é uma guerra? Minha esposa ainda tentou dizer em seu idioma (que também é o primeiro idioma do Endi) que se tratava de uma “kenka” (briga) entre países. Mas naturalmente o pequeno continuou a nos olhar, confuso. E foi aí que percebi o quão está cada vez mais difícil tentar encontrar uma lógica para o mundo em que vivemos: de guerras, pandemias e outras desgraças fabricadas, direta ou indiretamente, por esse bicho doido que é o ser humano.

Por exemplo, desde que começou a dar-se conta do mundo ao redor, meu filho acostumou-se a ver adultos usando máscaras: seus pais, avós, professoras da creche, etc. E se até os mais vividos já achamos assustador esse planeta mascarado, imaginem o impacto de tal visão apocalíptica na cabeça dos pequeninos...

Sim, vivemos, de fato, tempos esquisitos. E isso até para um sujeito pessimista como eu, que nunca levou muita fé na humanidade – achando mesmo que nossa violência e mesquinhez vêm desde os tempos em que um primata qualquer descobriu que poderia quebrar um pedaço de osso na cabeça dos demais e, assim, liderar o bando. 

Ah, mas há coisas boas na humanidade, a arte, por exemplo – retrucará algum descendente de um dos macacos que levaram, lá nos primórdios, as cacetadas do colega mais esperto. E não discordo totalmente: visto que a arte sempre foi um bálsamo em tempos de dor e agonia. Mas, infelizmente, não é a arte (exceto a da mentira) que tem configurado a geopolítica. Nós, os artistas, podemos até protestar, usar flores no cabeleira, fazer poemas e canções sobre a paz (ou subir no Cristo Redentor para gritar contra um presidente russo)... mas, no fim das contas, tudo depende se os Putins da vida acordarão ou não de mau humor.

Estou sendo cínico demais? Pode até ser. Mas acho que o cinismo, hoje em dia, é até uma questão de sobrevivência. Ou, pelo menos, de sanidade mental. Porque tentar analisar seriamente este tal de planeta Terra é o mesmo que pedir para enlouquecer. 

Sensou nani? – indagou-me o meu filhinho. Desculpa, meu garoto, mas papai não conseguiria encontrar as palavras certas para tirar-te esta dúvida. Pois, no fundo, o seu velho também não está entendendo toda essa bagunça. Na verdade, nem ele nem adulto algum. Se bem que, desconfio, o Bob Dylan saiba de alguma coisa... Sei lá... de alguma resposta, uma dica qualquer, que deve estar agora flutuando ao vento.

Ou me confundi com o Forrest Gump?

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de dez livros, sendo o mais recente Contos de um Brasil Esquecido, lançado pela Editora Folheando (Pará) e finalista do Prêmio Uirapuru. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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