news-details
SUB-VERSÃO

Se Cristo fosse médico

A recepção está lotada. Não há cadeiras suficientes, ainda mais levando-se em conta o obrigatório espaço entre elas imposto pela pandemia. Há muita gente, muita gente em pé. Por isso, quando a voz eletrônica chama alguém e o lugar vaga, não atrevo-me a ocupá-lo, deixo para os mais velhos, os mais machucados, aqueles em que a dor se faz tão nítida no semblante, que me dói também. 

Eu mesma trago comigo minhas dores, e por isso meu respeito pelos que sofrem. A ortopedia é quase sempre assim, lotada, prova de que acidentes nos acometem o tempo todo e de que a dor, a dor é real. 

Posiciono-me estrategicamente perto da porta de entrada. Dois cachorros fazem-me companhia, estão sujos e molhados, a garoa seguia intermitente desde a madrugada. Alguém os maldiz por estarem atrapalhando a circulação das gentes e das inúmeras cadeiras de rodas. Há quem pragueje mais quando com dor. A verdade é que cada um sabe da dor que carrega.

Minha cabeça move-se quase que involuntariamente a cada barulhinho no painel das senhas, colocar-me próximo à porta não ajudou muito na visualização, apesar de ter me dado umas golfadas a mais de ar menos rarefeito.

Nada... Mais gente chegando. Tenho consulta agendada para as oito e meia. Finalmente, a voz robotizada menciona três vezes: Ana Raquel Fernandes, consultório 03. “Por favor, entregue para o médico”, diz a recepcionista.

Lá vou eu, dou uma espiada dentro da sala, não há ninguém. Volto e confirmo se o médico estaria mesmo no consultório 03. Sim.

Ao retornar, percebo que ele está em uma das salas, não sei ao certo se a do gesso ou a do curativo, auxiliando. Ele é mesmo assim, penso e sorrio.
Deixo minha ficha e me sento. Começo a observar, exercício de que gosto muito. Na parede do corredor, um quadro, no qual uma árvore parece saltar em perspectiva diferente do resto da pintura. Confesso que esse quadro não me prendeu muito a atenção e então meus olhos grandes se voltam para a pintura pendurada numa das paredes do consultório.

É Cristo. Um Cristo moído em dor. Ensanguentado, pregado na cruz. Ele é a imagem da dor e do abandono. Prostrado, o filho de Deus espera obedientemente pela morte.

Ele entende das dores de nós todos. Ele as conhece, e por isso seu nome é Misericórdia.

Fosse ele médico, escutaria com atenção os relatos de seus pacientes. Examinaria-os detalhadamente, sem pressa e com muita perspicácia. Ofereceria-lhes algum alívio imediato, prescrevendo-lhes a medicina correta. Explicaria, com didática digna de um professor dos mais experientes, suas circunstâncias e o que poderia ser feito para, se não solucionar definitivamente, ao menos amenizar suas dores.

Se Cristo fosse médico, ele seria divinamente humano. Compassivo, respeitoso com a dor alheia, que já não lhe soaria tão alheia assim, visto que ele mesmo já a sentira em doses lancinantes.

Se Cristo fosse médico, estou certa disso, ele agiria como age o Dr. Guilherme da Silva Jr. Com todos os seus pacientes, seja atendendo ao sistema único de saúde ou aos convênios particulares. Sim, eu sei, porque já estive em ambos os lugares. 

Para ele, de quem Hipócrates muito se orgulharia, simplesmente não há distinção entre pacientes, a atenção e o comprometimento com que os atende é igual. 

Qual foi minha surpresa, quando depois de me explicar o resultado de meu exame, exemplificá-lo em meu braço, ele ainda me perguntou: “No que mais eu posso te ajudar hoje?”

Confesso que essa pergunta feita assim, tão naturalmente, deixou-me sem fala e acabei só agradecendo, quando devia ter dito que o senhor, Dr. Guilherme, com seu profissionalismo e compaixão, com sua humanidade e sua empatia já me ajudara muito. E quantos não devem ser aqueles a quem o senhor já ajudou... 

Em nome deles, de todos os seres humanos que foram dignamente atendidos pelo senhor, é que escrevo esse texto como forma de sincero agradecimento.
“Eu fiquei feliz que não rompeu a musculatura, viu?”, ele ainda disse, quando eu já me levantava para sair da sala. “Qualquer coisa, eu estou por aqui!”
E nessa hora, ao olhar de soslaio para o Cristo na parede, já não o enxerguei mais como antes, ele era agora um Cristo sorridente, usava um jaleco muito alvo e dizia de maneira forte e terna como só ele é capaz de dizer: “Eu também estou sempre por aqui com ele, viu, Aninha?”

Você pode compartilhar essa notícia!

0 Comentários

Deixe um comentário


CAPTCHA Image
Reload Image