“A morte da empatia humana é um dos primeiros e mais reveladores sinais de uma cultura à beira da barbárie” disse certa vez a filósofa alemã Hanna Arenth (1906-1975).
E a sensação parece ser realmente essa: de que a empatia ou qualquer trato de humanidade ainda existente parecem estar se perdendo. De modo específico, essa constatação se dá ao ver o volume de pessoas exterminadas em razão da chamada “operação” realizada pela polícia do Rio de Janeiro junto às comunidades da Penha e do Alemão, supostamente contra a facção Comando Vermelho, no último dia 28 de outubro, o que deixou um saldo de 121 pessoas mortas e as diversas manifestações de apoio publicizadas sobre isso!
Ora, ainda que todos os mortos acumulassem dívidas homéricas com a justiça ou que tivessem cometidos todo tipo de atrocidades, o Estado não tem o papel ou o poder de executá-los. Cabe a justiça julgar os seus crimes, decretar as penas e o indivíduo – se provada sua culpa – cumpri-las.
Mas não! O banho de sangue, o amontoado de corpos abatidos, enfileirados e deformados das vítimas da operação realizada, o que ocupou os noticiários dos últimos dias, dão o tom da matança que ocorreu, algo típico de uma cena de guerra ou estrelado num aterrorizante filme de terror!
Mas eram cenas da vida real. Da vida cotidiana de quem vive nas comunidades dos grandes centros urbanos. Lugar onde a polícia chega, por vezes, tocando o terror e o crime se organiza e especializa dia a dia, face a um Estado desorganizado, ausente e limitado.
E nesse caldo de horror, o espanto se dá em identificar que tal ação contou (e conta) com o apoio de parte da população e de muitos setores da sociedade, inclusive pessoas ou grupos ligados a alguma crença religiosa. Parece que “certos” corpos podem ser extintos e não há comoção quanto a isso.
As declarações feitas nas redes sociais pelo deputado federal Kim Kataguiri (União Brasil-SP), filiado ao Movimento Brasil Livre (MBL), por exemplo, dão o tom dos rumos que seguimos, ao dizer que quando ele e sua turma estiverem no poder a promessa é de uma matança duas vezes maior. Vale lembrar que o parlamentar já defendeu a criação de um partido nazista e não esconde de ninguém seu apreço por matanças em massa, como a que ocorreu no Rio de Janeiro.
Dessa mesma turma, o ex-deputado cassado por fazer turismo sexual na guerra da Ucrânia, Arthur do Val, não ficou de fora em destilar seus comentários, no mínimo, descolados e preconceituosos, típicos de quem desconhece a realidade sobre a qual quer comentar, ao dizer em suas redes que as mães da periferia não sabem educar seus filhos: “As mães de criminosos organizados, com todo respeito, elas falharam enquanto mães, vocês vão me desculpar. Eu não sei se foi por que você não soube escolher o seu parceiro, se você escolheu o famoso moreno alto com cara de bandido que lhe abandonou. Você falhou como mãe”, declarou. Com a enxurrada de críticas que levou, ele tentou se desculpar, mas o remendo ficou pior que o rasgo...
As lágrimas de quem perdeu um ente nesse massacre e convivem com a violência cotidianamente não comovem quem defende a morte. Na mesma medida, também não se reconhece o papel do Estado que não chega ou não chegou a tempo para que muitos não abraçassem o crime como a única opção de sobrevivência, em que imperam a desassistência, a apatia e a ausência quase completa desse mesmo Estado. Também não há ainda nenhum reconhecimento do trabalho extenuante e explorado – que não permite construir uma vida melhor – a quem vive nessas comunidades. Trabalha-se a vida toda para morrer na mesma!
E isso não é, longe disso, para justificar o crime, porque o crime não compensa! Tão somente se deseja cobrar uma vez mais a presença e papel do Estado; reconhecer, ainda, que a matança em massa não vai mudar a realidade e que o “sucesso” da operação – como mencionou o então governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL) – nada mais é que uma banalização ou espetacularização da morte. Algo que será usado como palco eleitoral nas próximas eleições o que, diga-se de passagem, já começou com um tal de “Consórcio da Paz”, capitaneado por governadores de direita, cuja tão sonhada paz só tem no nome!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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