Entre 2010 e 2012, a Igreja do Rosário passou por um processo de restauro que contou com uma equipe trabalhando nas obras do artista Salvador Ligabue, pintadas nas paredes internas do prédio. Agora, cerca de dez anos depois, a mesma igreja passa por novo processo de restauro, tão minucioso quanto. Desta vez, são as paredes externas da fachada de um dos mais importantes patrimônios históricos da cidade que passam por processo de restauração. A preservação de um patrimônio como esse ultrapassa o âmbito religioso. Não é a memória de um grupo específico que está sendo restaurada, mas a história de uma cidade.
Para a execução da revitalização, o Laboratório de Materiais de Produtos de Construção do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) prestará apoio para a restauração da fachada externa. De acordo com o instituto, o contrato com a igreja é para executar um levantamento das condições atuais das argamassas de revestimento do entorno da edificação e desenvolver um plano de recuperação para o resgate da memória histórica do prédio. As reformas foram autorizadas pelo Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico Artístico e Cultural de Bragança Paulista, o Condephac, já que a igreja é tombada desde dezembro de 2000.
O Jornal Em Dia conversou com o padre Edson Marcelo Falsarela e com Afonso Santangelo, coordenador da obra, para saber mais detalhes sobre a restauração da igreja e como a comunidade pode contribuir.

De acordo com o padre Marcelo, uma dúvida frequente é por que realizar a obra agora, durante a pandemia. “Foi necessário fazer agora por conta dos desplacamentos. É algo muito sério. Há um ano atrás, durante uma ventania, uma placa caiu sobre um carro. Então, decidimos que esse ano iríamos cuidar daquele prédio”, explica. “Tínhamos duas opções: ou fazer, ou interditar a igreja. Essa foi a orientação que recebemos da Defesa Civil. Não tinha como esperar, não é justo colocar a vida de qualquer pessoa em risco”, completa Afonso.
Segundo o IPT, o sistema de revestimento da igreja é constituído por tijolos de barro e pela argamassa aderida na superfície. Quando ocorre a entrada de umidade na edificação, a interface entre tijolos e argamassa enfraquece e acontece o desplacamento, que acelera o processo de degradação e pode causar acidentes em quem frequenta a igreja e em transeuntes.
“As paredes são muito largas. Ao longo dos anos fatores como poluição, sol, chuvas, foram contaminando toda a fachada. Segundo o IPT, existem microlesões por onde a água foi infiltrando ao longo dos anos. Essa água desce toda a fachada e vai parar no subsolo da igreja. O trabalho sugerido pelos pesquisadores é que seja feita a remoção da calçada para chegar à profundidade necessária para desenvolver o trabalho para segurar a água que sobe. A calçada será aberta aos poucos, para que essa recuperação seja feita parte por parte. Vai ser um trabalho minucioso para estancar a umidade que sobe”, explica Afonso.
Além disso, também serão realizados trabalhos na parte elétrica da igreja. As torres também serão recuperadas e as cruzes iluminadas com lâmpadas de LED.
O trabalho do IPT envolve o uso de ferramentas tecnológicas como um drone com câmera termográfica para serem identificadas as manifestações patológicas na parte externa da igreja, inclusive nas partes mais altas, e a coleta de amostras para caracterização das argamassas. De acordo com o pesquisador do instituto, Osmar Hamilton Becere, posteriormente, será desenvolvido, em laboratório, um traço, que é a composição da argamassa a ser usada nas regiões que precisam ser restauradas, ou seja, a indicação da quantidade de materiais que constituem a argamassa produzida a partir de cimento, como o concreto, alvenaria, reboco, o chapisco e o emboço.
Após realizar a caracterização, a equipe do IPT irá auxiliar na execução das obras propriamente ditas, como a identificação de materiais na redondeza que tenham características similares aos usados na construção da igreja, como o agregado miúdo (areia) e o cimento mais adequados à esta realidade da edificação – isso será possível a partir das informações obtidas nos ensaios laboratoriais. Para terminar, o pesquisador explica que o IPT irá acompanhar as equipes responsáveis pelo restauro em atividades como a aplicação de argamassa e o acabamento final, pois é fundamental que os profissionais que desempenham o papel direto durante a execução sejam capacitados.
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Todo o trabalho desenvolvido tem como base um mapeamento dos danos e patologias. A partir disso, é preparado um estudo com a conclusão, e aí sabe-se como e com o que trabalhar. De acordo com Afonso, nos testes realizados, surgiu um traço de cor vermelha na fachada. “Como é necessário reproduzir exatamente como foi a construção, a dúvida a respeito desse traço paralisou o trabalho para que seja possível encontrar o modelo da tinta a ser usada.
Vai ser uma tinta mineral exclusiva para esse projeto. Não é algo que exista no mercado, então será produzida para que se atinja a reprodução exata de como era a fachada da igreja, sem alteração nenhuma”. Segundo o coordenador da obra, existem várias hipóteses sobre o que pode ser esse traço. Uma das suspeitas é que seja terra, já que era de costume da época misturar esse material na massa.
Para chegar à reprodução perfeita, houve a procura, entre os portos de areia da região, por um tipo que fosse compatível com o usado há 50 anos, época em que foi feito o reboco das paredes externas do prédio. Em um primeiro momento, a igreja era de tijolo à vista, apenas décadas depois é que foi feito o revestimento.
De acordo com Afonso, a areia necessária para o processo foi identificada. Com isso, a equipe pretende deixar uma boa quantidade do material guardado e preservado para uma nova restauração, no futuro, facilitando o trabalho lá adiante.
A obra tem previsão de ser concluída no primeiro semestre de 2022, em pelo menos mais cinco meses de atividades. A igreja não será fechada, mas provavelmente serão necessárias algumas adaptações, como mudar a porta de entrada, dependendo de onde o trabalho esteja sendo executado no momento.
Uma pequena mudança prevista, mas que não altera a reprodução fiel da fachada, já que não era algo que existia à época da construção, será a do ponto em que está instalado o padrão de energia. Ele será removido da frente da igreja e será instalado nos fundos, de maneira em que não haja um poste aparecendo.
Mesmo com todo o empenho da equipe da igreja e do instituto de pesquisa em buscar reproduzir o mais fielmente possível a construção original, há uma intervenção externa que está dificultando o processo. Para todas as outras houve uma solução, como a remoção da calçada ou a procura por uma areia específica.
No entanto, para essa, ainda estão à procura de uma solução definitiva, mas é necessária a colaboração de algo talvez tão incontrolável quanto o tempo: a intervenção humana. “A maior dificuldade para a restauração é em relação às pichações. A tinta penetra de uma forma que é bem difícil de remover. Estão sendo feitos testes para isso também. Mesmo assim, nenhum reboco será removido. Vamos encontrar uma solução”, diz Afonso.

Preservar um patrimônio histórico é dever de todo cidadão. Não contribuir para deteriorar ainda mais já é de grande ajuda. As ações do tempo, como sol e chuva, não podem ser controladas. Mas a humana sim. Portanto, não danificar é uma colaboração. No entanto, há outras maneiras de fazer parte desse momento importante para a restituição da memória de Bragança.
O padre Marcelo explica que é possível contribuir financeiramente com a obra de diversas maneiras. “Tomamos algumas iniciativas para que a comunidade possa nos ajudar a arrecadar recursos para a obra. Estamos servindo almoço todos os dias, na Cripta da Catedral, a partir das 11h. Temos mesas, então é possível comer ali mesmo, ou também retirar. Além disso, criamos um carnê solidário, no valor de R$ 10,00, que pode ser retirado depois das missas do Rosário e da Catedral”, conta.
As contribuições financeiras também podem ser feitas por PIX, com a chave 45613668000495, que é o CNPJ da Mitra Diocesana. E ainda há a possibilidade de realizar depósito ou transferência nas seguintes contas: Caixa Econômica Federal: Agência 0293 - Conta Corrente: 0030405, código 003 ou Banco Itaú: Agência 0680 - Conta Corrente: 00254-0.
Para mais informações, basta entrar em contato pelos números: (11) 4033- 0470 (Catedral), (11) 2277-3988 (Rosário) ou (11) 9568-4522 (WhatsApp).

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