Menino criado na igreja, houve um tempo em que almejara o celibato. Uma vida devotada a Deus era-lhe mais convidativa que uma entregue ao hedonismo do mundo. Inserido no mundo, João não se via nele, buscava viver uma espécie de vida à parte, sisuda, correta, de bem.
A infância marcada pela reclusão imposta pela mãe. Não, o menino não brincava na rua, nem aprendera os palavrões pequenos dos amigos. Na verdade, não tinha amigos. Talvez porque a amizade exija um mínimo de concessão e empatia, talvez porque não enxergasse, suficiente que era, a necessidade de outro ser humano.
Não à toa, os garotos o chamavam de “estranho”. O adjetivo o definia bem. Adjetivos, ele conhecia bem poucos, não era muito afeito à leitura, o que restringia bastante seu vocabulário. Corou certa vez quando Clara o chamou de “energúmeno”, teria corado mais se soubesse o real significado do vocábulo. Em sua mente perturbada pelo constante embate entre o bem e o mal, a menina o havia desrespeitado, atingindo sua honra ao referir-se à sua sexualidade. Quanta ignorância!
Leitora de Nietzsche, Clara riu uma gargalhada alta, digna de quem se encontra bem para além do bem e do mal.
João, no entanto, permanecia nesse ínterim, absolutamente dominado pelo tormento que a obrigação de parecer bom lhe impunha o tempo todo. Mas porque a despeito de sua própria vontade, era humano, João penitenciava-se. Ao lado da cama, um terço e um pequeno relho adornavam o quarto do agora homem feito João. Santidade e punição, lado a lado, como se a primeira dependesse da segunda, ou, ao menos era assim que ele cria.
A primeira vez foi logo depois de descobrir seu sexo, assustado com o volume na calça, o menino-homem desejou pela primeira vez. A palavra nunca dita ressoava-lhe na mente, enquanto buscava alguma forma de aplacar o implacável. Nunca naquela casa de pessoas do bem havia sido pronunciada, nunca se fizera nem menção ao ato, ainda que todos soubessem ou desconfiassem, as crianças deviam vir de algum lugar. A finalidade do sexo era a reprodução, essa sim abençoada pelo Senhor, daí João ter oito irmãos. O prazer? Servir a Deus, à família e a pátria.
Aos dezoito, se alistou. A mãe chorou ao ver o filho fardado pela primeira vez, a irmã mais nova chegou a desejar em secreto uma guerra, só para que pudesse ver o mano em ação. O pai deixou transparecer um esboço de sorriso no canto da boca, ainda que tentasse com todas as forças manter o semblante sisudo de sempre.
Não houve guerra alguma, só as de sempre mesmo, aquelas que os homens lutam cotidianamente e às quais ninguém nota ou atribui valor. João seguia lutando contra a carne, agora, com um rifle na mão, exposto ao frio e à chuva nas guardas do quartel. Diferente de seus colegas de infância, que ali estavam por mera obrigação, João sentia um orgulho enorme por servir à Pátria, e mesmo assim não foi promovido a atirador, nem ganhou nenhuma medalha ou menção honrosa. Era um soldado medíocre.
Recém-saído do serviço militar obrigatório, que cumprira com gosto, o moço arranjou trabalho numa fábrica da cidade. O pouco que ganhava era suficiente para se considerar pertencente à classe média e alimentar seu desprezo pelos pobres. Havia muitos pobres nessa época.
Nem mesmo a beleza lhe favorecia, era magro, esguio, corcunda, olhos de peixe morto, diriam, daqueles nos quais não se vê nenhum brilho ou vigor. João tinha cara de mártir, sem sê-lo. Não chamava a atenção das moças nem mesmo fardado. Pois é, há quem tenha esse fetiche.
Indignava-se quando presenciava um de seus colegas de batalhão assoviando para alguma beldade que desfilava em frente ao quartel. Chegou a sentir novamente o volume na calça em uma dessas ocasiões. A penitência veio a cavalo, fora convocado para fazer a guarda aquela noite. Chovia horrores. Encharcado, desejou que cada gota de chuva fosse uma ponteira de seu chicote, a abrir-lhe a carne. Estivesse em casa, e a camiseta branca que usava por debaixo da farda já estaria tingida de vermelho, e essa não era nem de longe sua cor favorita.
Não foram poucas as noites em que se flagelou. Até que um dia, conheceu Tereza, a criatura mais angelical que já pisara nessa terra. Menina tímida, ex-candidata à vida religiosa, chegou a frequentar o convento das Clarices, mas surpreendentemente acabou cedendo aos “encantos” do jovem conservador. A ideia de construir uma família ao lado do moço mais cristão da cidade inteira a inebriava. E dito e feito, sem nem ao menos terem tocado os lábios um do outro, casaram-se na Matriz da cidade, sob as bênçãos do Altíssimo e os olhares assustados dos moradores da pacata cidadezinha.
A noite de núpcias seguiu como o esperado: Nada aconteceu. Permaneceram os dois deitados lado a lado, sem trocar uma única palavra. Nada sabiam sobre desejar, precisariam aprender.
Os dias se seguiram e eram dias maus. O fascismo ascendera ao poder e as ruas e os corações dos homens estavam cheios de um ódio há tempos oculto. João sentia o desejo irromper-lhe a pele mais uma vez em muito tempo. Sentia o volume crescer-lhe nas calças toda vez que ouvia o novo “führer”, num misto de prazer e violência que as palavras do fascista provocavam. A esposa, criatura dócil e submissa já não lhe provocava tais sensações. Trepava com ela por obrigação. Pedro foi resultado dessa obrigação bem cumprida e consumia os dias da mãe amorosa e dona de casa exemplar. Tereza era grata a Deus pela bênção de ser mãe, ainda que de seu filho e seu marido.
O marido, cada vez mais distante, cada vez mais grosseiro e violento. Passava as poucas horas que tinha de lazer, ouvindo discursos odiosos contra mulheres, homossexuais e negros, e em seguida, tocava-se. Passou a odiar ainda mais a cor vermelha, chegando ao ponto de impedir a esposa e o filho de usarem-na. O comunismo era, para ele, uma ameaça real. Sua mente estava tomada por uma espécie de torpor que o impedia de raciocinar direito. Sua violência e ódio guardados há anos encontraram agora espaço e aval para manifestarem-se.
Seu rosto, outrora apático, transmutou-se no dia em que a espancou pela primeira vez. Foi um ato absolutamente desnecessário e animalesco, mas o pior, é que a este outros ainda mais animalescos se seguiriam. Aos poucos, foi deixando de conversar, o que já fazia bem pouco normalmente. Perdeu inclusive a feição violenta, perdeu a pose de macho, o brio, se é que algum dia teve algum, perdeu o apetite e até mesmo a fala.
Mas a transformação total deu-se mesmo naquela manhã de janeiro, o gatilho? A posse do novo presidente.
O homem agora já não conseguia emitir palavra, apenas mugidos, não usava calçados e corria feito bicho, ao ver a cor vermelha. Na sola dos pés, uma grossa camada de pele formava-se, casco.
Com o passar dos dias, foi encurvando-se, a coluna desejando a proximidade com o solo, até que, não conseguindo mais ficar ereto, transmutou-se em quadrúpede. Prostrado, feito um Nabucodonosor pós-moderno, deixou a casa e passou a viver feito uma rês no campo, aos fundos do terreno. Cabelos e barba compridos, o corpo imundo da vida ao relento, João animalizou-se por completo. Tereza o alimentava, cumprindo seu papel de cristã e esposa devotada. Tereza chorava, ao constatar em que se transformara o homem de bem que escolhera como marido.
Idiotizado pelo ódio, o homem-rês sobreviveu ainda alguns anos, alimentando-se de pasto e ruminando maldades. O filho, agora homem feito, o desprezava, decidido que estava a viver uma vida livre ao lado de seu companheiro. Companheiro era uma palavra que também incomodava e muito ao antigo pai de família.
Seus olhos bovinos encheram-se de um ódio ancestral, quando avistaram ao longe o filho e alguns amigos vindos de uma passeata em defesa da democracia. Todos vestidos de vermelho, a mais temida das cores. A democracia no país estava finalmente restaurada, após sofrer covardes ataques. A sanidade de João jamais o seria.
Quando o homem encontra validação e incentivo para mostrar sua face mais cruel é isso que ele se torna. Muitos foram os que, a exemplo de João, animalizaram-se, causando espanto aos pacatos moradores da pacata cidadezinha. Houve aqueles a quem o ódio enrustido afetou tanto, a ponto de promoverem verdadeiros espetáculos abomináveis. Houve quem rezasse para um pneu, e quem também acampasse em frente ao quartel, isso mesmo, aquele que havia servido de glória para o medíocre soldado raso João no passado, pedindo intervenção militar, mesmo após a realização de eleições diretas e sob a utilização de meios absolutamente seguros e democráticos.
Mas naqueles em quem a sanidade e o bom senso ainda resistiam, havia uma alegria genuína, aquela que só o retorno à dignidade e o alívio do reestabelecimento do estado de direito podem promover. A cidade estava dividida, mais um mérito do fascismo, e talvez jamais voltasse à união de antes. As reses todas em seus currais particulares, ainda ruminando vinganças pueris.
João morreu numa manhã clara de domingo, engasgado no próprio vômito, depois de muito ruminar ruindades.
0 Comentários