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Política

Religião e política: intolerância, fundamentalismo e o espírito cristão

Acredito que muitas pessoas estejam assustadas e até horrorizadas com a ocorrência de ataques a líderes religiosos, desrespeito a locais de culto, perseguição a fiéis que possuem determinados posicionamentos políticos ou religiosos que propagam mentiras, “fake news” e até ofensas e discursos de ódio.

Historicamente, religião e política quase sempre se misturaram e a separação entre Igreja e Estado é algo relativamente recente. Por isso, a influência das religiões, igrejas e seus seguidores na política tende a ser algo normal, visto que elas carregam valores e princípios que se relacionam com a forma como a sociedade se organiza. Mas isso não significa que devam transformar os seus púlpitos em palanques eleitorais e sejam instrumentalizadas em favor de um determinado político ou partido. Nesse sentido, penso ser importante problematizar alguns pontos:

“O Brasil é um país cristão” – Ainda que a maioria da população se declare cristã, seria importante questionar quanto a afirmação acima, dita comumente por religiosos ou políticos a fim de defender certos posicionamentos, pode representar uma não aceitação ou até mesmo um discurso intolerante com aqueles que são judeus, islâmicos, candomblecistas, umbandistas, de outras religiões e os que não possuem religião ou se declaram ateus.

“O diabo é o pai da mentira” – A frase bastante popular entre os cristãos nos lembra da condenação bíblica da mentira. Tal princípio deve estar trazendo inquietação e perplexidade, devido ao fato de que muitos cristãos passaram a dizer mentiras e a propagar “fake news” – ainda sabendo que as mesmas são inverídicas – com o objetivo de atacar políticos adversários e favorecer suas escolhas políticas. 

“A defesa da vida” – O respeito pela vida é um princípio da maioria das religiões e também de pessoas e filosofias não-religiosas. Na tradição cristã, ele já aparece como mandamento central no “Não matarás”. Interessante observar como, para alguns, esse princípio tenha se restringido à condenação do aborto. Caberia perguntar: onde estava a defesa intransigente da vida durante a pandemia de Covid-19, quando muitos diziam que a economia não poderia parar e algumas vidas precisariam ser sacrificadas, num discurso que foi responsável pela morte de grande parte dos nossos quase 700 mil mortos? Como aceitar um sistema econômico extremamente injusto e desigual que mata brasileiros de fome ou que esfacela suas vidas por não possuírem condições mínimas de sobrevivência. O que dizer de cristãos armamentistas e defensores da pena de morte?

“Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra” – Chama atenção a maneira como pessoas religiosas vêm ofendendo, perseguindo e até mesmo realizando julgamentos e ataques contra aqueles que possuem uma determinada posição política, seja para com pessoas de fora da igreja, e, diversas vezes, contra irmãos da mesma fé, fazendo com que se assemelhem muito mais com os acusadores da mulher adúltera do que com o caráter acolhedor, misericordioso e amoroso de Jesus, que tanto faz parte das práticas de muitas igrejas e denominações, mas que parece ter sido esquecida nesses tempos. Aproximando-se muito da “soberba espiritual” condenada pelo Papa Francisco no Angelus do último domingo, dia 23/10, a qual “leva-nos a pensar que somos bons e a julgar os outros [e] sem nos darmos conta, adoramos o nosso eu e cancelamos o nosso Deus”.

“Deus acima de todos” – Penso que, neste momento, não são poucos aqueles que estão perplexos com o que vem ocorrendo em muitas igrejas e realizado por muitos religiosos, o que pode gerar descrença, desânimo com a fé e uma desconfiança do próprio amor cristão. Mas como nos lembra Atos (17:24), “o Deus que fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor dos céus e da terra e não habita em santuários feitos por mãos humanas”. Ou seja, Deus não está aprisionado em quatro paredes, mas habita em nós, e como sempre nos alerta padre Júlio Lancelotti em suas homilias: Deus não está acima de todos, mas no meio de nós, no nosso irmão, em especial, nos mais pobres e marginalizados.

Adriano Henriques Machado, doutor em História, é professor do Instituto Federal de São Paulo – câmpus Bragança Paulista

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