“Minha esperança é necessária, mas não é suficiente. Ela, só, não ganha a luta, mas sem ela a luta fraqueja e titubeia” - Paulo Freire
Escrevo esse texto justamente no dia em que se “comemora” o Dia da Educação. Desde muito cedinho, meus olhos encheram-se de lindas postagens com frases de pedagogos, celebrando esse dia nas redes sociais. Dentre todos, Paulo Freire, é, sem dúvidas, o meu preferido.
E por isso mesmo me pego pensando o quanto ele sentiria ao ver nossa educação tão sucateada e desumana. Sim, por que a educação que ele pregava era demasiadamente humana. E é assim também que eu a enxergo, e é por isso que ainda acredito em seu poder como agente de transformações sociais profundas.
Dito isso, é com a cena a seguir, ainda muito nítida em minhas retinas, que “celebro” o Dia da Educação. A cena de duas meninas, vou chamá-las assim a despeito de saber que elas preferem ser chamadas de pré-adolescentes, vindo ao meu encontro na escola para questionar se eu também podia ajudar. Elas estavam organizando uma ação para ajudar um colega de classe, que, no mesmo dia havia passado mal em sala de aula de fome.
Isso mesmo, fome! Meu coração velho de professora, apesar de passados muito anos, ainda não conseguiu se acostumar a essa realidade... Na véspera da data escolhida para celebrar o dia da educação, mais uma vez eu me deparei com a fome invadindo minha sala de aula, como sempre violenta, como sempre sorrateira, como sempre absurdamente desumana, mais uma vez, ela ousa entrar no reduto quase sagrado das nossas escolas, ceifando de nossas crianças muito mais que apenas o desenvolvimento cognitivo, ceifando também, de certa forma, suas vidas.
Claro, pode contar comigo! Respondi à menininha espoleta, cuja ansiedade por ajudar via-se refletida em seus gestos rápidos e fala mais rápida ainda. E sabe o que pensei também?, disse a ela, além dos itens básicos de alimentação, podemos trazer também umas coisas gostosas, o que você acha? Bolacha recheada, chocolate...
Eu já pensei nisso, professora, e ele tem três irmãos, tá? Tá bom.
Quatro crianças passando fome, e como é que vou celebrar o dia da educação, eu me pergunto.
Talvez, e por que é preciso sempre enxergar a beleza que pode se ocultar nas situações mais adversas e cruéis, talvez aquela menininha e seus colegas sejam o motivo de eu celebrar sim esse dia, e não só ele, mas todos os que ainda virão para a educação desse país e sua gente que amo.
Que a fome seja de uma vez por todas extinta desse país, que a educação possa desenvolver-se de forma plena, sem ser saqueada por essa inimiga invisível e impiedosa.
Enquanto isso não acontece, eu sigo através da luta e da esperança, no chão da escola, aprendendo muito mais do que ensinando, com esses seres humanos incríveis com quem me deparo diariamente.
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