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Olhar Social

Quem se importa?

Vivenciamos durante a pandemia de Covid-19 – a qual ainda não terminou – por vários meios e vozes, a narrativa de que sairíamos melhores dela. O “novo normal”, como diziam, permitiria a humanidade repensar suas atitudes e faria de nós seres humanos melhores.

A sensação, sem precedentes, de estar próximo ou ter chegado “o fim de mundo”, permitiu construir no imaginário o modelo do humano ideal: aquele que, em sua essência, tem consciência ambiental, racial, de classe; é solidário e gentil por natureza – sem almejar alguma vantagem; a empatia e compaixão são princípios imateriais; o respeito e a vida estão acima do lucro, das diferenças, do poder e privilégios; e entre as mulheres prevalece a sororidade, uma espécie de irmandade e união, como natural, na luta cotidiana em uma sociedade misógina, machista e patriarcal.

Longe desse desejo, o desvelar da realidade nos fazia relembrar o poema de Bertolt Brecht – poeta alemão (1898 - 1956): “Primeiro levaram os negros, mas não me importei com isso, eu não era negro; em seguida levaram alguns operários, mas não me importei com isso, eu também não era operário; [...] Agora estão me levando, mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo”.

Como uma espécie de erva daninha, o individualismo parecia ter se alastrado ainda mais – uma vez que ele já é fomentado pelo próprio sistema capitalista, por meio, dentre outros, dos discursos sedutores da meritocracia, empreendedorismo, competitividade – sendo cultuado pelos mais diferentes grupos, colocando os interesses pessoais acima de interesses coletivos. 

Em nome da chamada liberdade individual, se questionava, por exemplo, as medidas que eram adotadas para enfrentar a pandemia, materializando, para além do egoísmo, o negacionismo à ciência em proporções jamais imaginadas. Inúmeras declarações e atitudes de quem preside o país, mas não só, caminharam (e caminham) nesta direção, criando uma espécie de “realidade paralela”.

A resistência ao uso de máscara – como uma medida de proteção a si e aos outros – atravessou toda a pandemia, mesmo nos momentos mais agudos, tendo êxito recentemente ao ter seu uso flexibilizado ou suspenso em grande parte do país. No estado de São Paulo, o então governador João Dória (PSDB) – ansioso na adoção de medidas populares em ano eleitoral –, suspendeu seu uso primeiro em lugares abertos e há pouco em lugares fechados. 

Quem se importa com os mais vulneráveis e suscetíveis ao vírus, em especial porque a pandemia ainda não acabou? Diariamente, temos o registro de centenas de óbitos e pessoas contaminadas; cientistas, pesquisadores e técnicos parecem ser ignorados em suas lutas cotidianas em prol da saúde de uma sociedade que está doente. Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz, declarou em entrevista recente: “Não é hora de tirar a máscara em ambiente fechado”. Mas quem se importa, num país que parece ter criado desde o início um trato particular de lidar com o vírus?

O individualismo exacerbado parece ter criado uma espécie de ser que se considera acima do bem e do mal. Incapaz de se colocar no lugar do próximo ou ao menos compreender suas necessidades; sair da bolha onde se encontra e olhar para além do mundo em que vive; criar e seguir suas próprias normas e regras, atropelando tudo que encontra pela frente.

Do mesmo modo, a carestia da vida, precarização do trabalho, renda e tantas outras tragédias e mazelas cotidianas parecem não ter sido suficientes para construir uma força contrária, imediata e coletiva de seu enfrentamento. A apatia de muitos e a falta de um “senso de urgência”, uma espécie de reação imediata aos acontecimentos diários – inclusive das alas mais progressistas da sociedade, movimentos sociais, coletivos de oposição ou, ainda, a espera de um “salvador”, que como mágica mude a realidade vivida – mantêm uma paralisia geral, onde parece que tudo vai bem.

Só seremos melhores, de fato, quando superarmos nosso individualismo, vaidade, imparcialidade e imprimirmos um espírito de urgência e coletividade capaz de se importar com as necessidades para além de si. Certa rebeldia que nos provoque a questionar as estruturas que mantêm um país injusto e desigual, em vários aspectos, e nos mobilize na construção de uma sociedade, que precisa, necessariamente, ser acessível e do interesse de cada um de nós. 

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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