Ao longo da história do Brasil, construiu-se a ideia – segundo a filósofa brasileira Marilena Chauí – de que somos um povo pacífico, ordeiro e nada violento. Uma espécie de “mito”, tido como algo fantasioso na narrativa dos fatos.
Assim nossa história foi sendo contada, ocultando várias atrocidades, violências e sangue derramado, principalmente dos povos explorados e marginalizados, como os negros e indígenas. Nas palavras da filósofa, em seu livro “Sobre a violência”, de 2019, a “[...] ‘história feita sem sangue’ opera como alicerce para construção mítica da sociedade brasileira como a boa sociedade, pacífica e ordeira”. Realidade essa que está longe, bem longe do que erámos e ainda somos: uma sociedade violenta, muito violenta!
No cotidiano da vida, essa violência toda se expressa: um trânsito violento, relações entre pessoas extremante violentas, um Estado violento etc., o que se intensifica ainda mais ao idolatrar uma cultura armamentista, amplamente endeusada pelo ex-presidente do país.
Nos últimos dias em Bragança Paulista, teve grande repercussão o episódio de uma criança, de nove anos, que foi morta em casa em razão de um tiro supostamente acidental. O que se sabe até o momento é que a arma – sem registro – estava enrolada em um edredom e, quando a mãe da criança o pegou, a arma teria caído ao chão e acertado em cheio o abdômen da menina, que, mesmo socorrida às pressas, não teria resistido ao grave disparo.
Nesses últimos dias também, em que acompanhamos o período pré-eleitoral nos EUA, vimos a tentativa de assassinato contra Donald Trump, candidato à presidência do país pelo Partido Republicano. O atirador, um jovem de 20 anos morto pelo Serviço Secreto dos EUA, acertou de raspão a orelha direita do então pré-candidato, feriu algumas pessoas e deixou um morto. A arma usada – um fuzil AR-15 bastante popular nos EUA e do mesmo modelo usado em tantos outros massacres ocorridos no país nos últimos anos – foi comprada legalmente pelo pai do jovem.
Nos EUA, os chamados acidentes domésticos com arma de fogo são, desde 2020, a maior causa de morte de crianças. Além disso, a cada cinco americanos adultos, um deles tem algum membro da família que foi morto por uma arma de fogo, conforme dados de 2023 da Kaiser Family Foundation, organização sem fins lucrativos que pesquisa questões de saúde no país.
Uma lógica naturalizada de convivência com as armas, uma espécie de adereço às vestimentasou algo que compõe os bens necessários adquiridos no interior do lar! Mas, na prática, essa cultura armamentista revela sua face perversa em uma sociedade já muito violenta, seja dos EUA, seja do Brasil. Sua presença, liberada e irrestrita, sob o pseudo mantra de “armar o cidadão de bem” só faz, na realidade, alimentar as estatísticas cotidianas, que vão de supostos acidentes domésticos a massacres ou assassinatos programados, em ritmos cada vez mais veloz. Uma verdadeira bomba relógio numa sociedade, como a brasileira, injusta e desigual, ao desejar-se fazer justiça com as próprias mãos.
Há muitos interesses, econômicos e políticos, em armar uma “população de bem”, seja no fomento e incentivo à indústria armamentista; seja na construção de uma espécie de pânico social transferindo para cada um a responsabilidade pela segurança de si e de todos – que, aliás, é do Estado – ao defender-se dos infortúnios e desafetos que cruzam o seu caminho, retroalimentando o próprio mercado de armas; seja ainda na eleição de parlamentares que compõem a chamada “Bancada da Bala”, que defendem os interesses desse mesmo mercado e propagam discursos explicitamente violentos no combate, dentre outros, da própria violência.
Pois é, estamos longe, muito longe se sermos esse país pacífico que foi pintado ao longo da história. Mas, agora, estamos contanto os fatos como eles realmente são, onde a violência atravessa o tempo e pode ser rentável!
A questão que fica é: que tipo de sociedade queremos construir – de paz ou de armas?

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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