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Olhar Social

Que nunca mais aconteça!

Por mais que queiram criar animosidades entre Brasil e Argentina ao fomentar, entre outros, uma rixa futebolística, o fato é que temos muito a aprender com os nossos hermanos, ao menos em relação ao trato dado a um dos períodos mais sangrentos de sua história: a Ditadura Militar.

Enquanto lá – como bem ilustra o filme Argentina, 1985 – os militares foram julgados e punidos; aqui eles são tratados como heróis – basta lembrar o emblemático episódio no impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, quando o então deputado federal Jair Bolsonaro dedicou seu voto a um dos maiores torturadores do nosso período ditatorial: Carlos Alberto Brilhante Ulstra.

Como se não bastasse, ainda vemos e revemos em nosso cotidiano pessoas atônitas pedindo a volta dos anos de chumbo – como as que se manifestavam vorazmente durante o governo anterior – saudosistas de um período imaginário que foi camuflado como áureo em nosso país!

Já dizia a historiadora brasileira Emília Viotti da Costa, “um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado”. Pois bem, parece ser essa a nossa sina!

Mas “que país é esse?” – indagava a Legião Urbana nos idos dos anos oitenta – e hoje nós perguntamos...

Que país é esse que não puniu Jair Bolsonaro quando ele dedicou seu voto a uma das pessoas mais repudiáveis e criminosas deste país? Que, parecendo gozar de certo sadismo, referenciava-o como o “terror de Dilma Rousseff”, já que a ex-presidenta foi presa e torturada pelo regime?

Que país é esse onde não se coloca as “cartas na mesa” e acerta, de fato, as contas com seu passado? Que não traz à tona os bastidores daqueles anos, julga e pune seus mandatários e dá o descanso eterno as suas vítimas? Vítimas que vagam por justiça, porque esperam que seus algozes sejam julgados e punidos, não ovacionados!

A repressão política – que há cinquenta e nove anos foi imposta neste país – levou à perseguição, assassinatos, desaparecimentos e torturas de uma multidão de pessoas contrárias ao regime. Ainda hoje temos pessoas desaparecidas – esse foi um dos dados compilados no Relatório da Comissão Nacional da Verdade, criada em 2011 por Dilma Rousseff.

Na clandestinidade, grupos e pessoas tentavam sobreviver, lutando e resistindo para que houvesse “outro dia”, como cantou Chico Buarque: “Apesar de você; amanhã há de ser outro dia”. Dia que trouxesse de volta a democracia, em que imperasse o respeito, justiça, diversidade, liberdade de expressão...

Um desses coletivos – liderado por Dom Paulo Evaristo Arns e pelo Pastor Presbiteriano Jaime Wright – esteve à frente de um importante trabalho que culminou, entre outros, no livro “Brasil: Nunca Mais”. Nos bastidores, os religiosos conseguiram colher inúmeras informações, que davam a dimensão da repressão do período. Nas páginas do livro – parte de um imenso relatório produzido – que parecem escorrem sangue, o mal-estar sentido se mistura com os gritos de suplício que ecoam ao pé do ouvido, dado o nível e intensidade da violência praticada.

Conhecer essa história, além de um direito de todas e todos, é construir memória de um país que reconhece seu passado e com ele aprende a lição. Aprendizado que não pode ser furtado, em especial das futuras gerações, tanto no fomento a uma educação em direitos humanos, quanto ao enfrentamento de qualquer narrativa que vanglorie esse triste e sangrento episódio da história do nosso país; além da soma de força e de esforços que realmente julgue e puna seus culpados. Basta de varrer para debaixo do tapete o sangue derramado de quem ousou sonhar com a democracia.

Dizia Dom Paulo Evaristo Arns: “Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”!.

Não vamos esquecer!

Caminhamos por justiça!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo

 

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