“Alah la ô ô ô ô ô... Mas que calor ô ô ô ô...” é talvez uma das marchinhas mais presentes nos blocos e bailes de Carnaval Brasil afora...
Seu ritmo dançante vai puxando um a um a entrar na festa e se jogar na diversão, no calor que contagia o folião, num típico clima que eleva a temperatura da estação e da farra!
Mas o calor fora de hora, que tem elevado o termômetro em nosso país como um todo em pleno inverno, não tem nada de animador, bacana e contagiante.
Um calor que tem batido todos os recordes climáticos, levando ao aquecimento dos oceanos, derretimento do gelo na Antártida, ampliando incêndios florestais, causando inúmeros agravos a saúde – de mal-estar a mortes – a uma velocidade não só assustadora, mas real e sentida nas gotículas que escorrem pela pele.
Por aqui, a sensação que fica é não temos (ou não tivemos) inverno este ano, ao passo que regiões do sul da Europa, América do Norte e China, por exemplo, registraram temperaturas que chegam aos 50ºC, o que permite concluir que, de fato, o planeta está gradativamente aquecendo.
Julho deste ano registrou a temperatura média global mais quente de todos os tempos, 1,5ºC a mais, se comparada ao período pré-industrial (1850-1900), momento em que se começa a emitir em larga escala, os gases de efeito estufa; em 2022, esse aumento havia sido de 1,3ºC. Também tivemos neste mês o lamentável título de mês mais quente já registrado pelo Planeta, algo sem precedentes na história!
É o que o secretário da Organização das Nações Unidas (ONU) – António Guterres – chamou de “ebulição global”, que prenuncia um horizonte catastrófico, com prevalência de epidemias, incêndios florestais e colapsos de abastecimento, se o aquecimento global não frear a tempo.
A crise climática – já em curso – coloca o mundo inteiro em alerta contra o aquecimento global, provocado diretamente pelas atividades humanas, em grande medida pela queima dos combustíveis fósseis, como o carvão, petróleo e o gás; pelos crimes, extermínio e exploração contra as florestas, seus biomas e guardiões (os povos indígenas); e pelo negacionismo impresso na reprodução de mentiras – as chamadas fakes news – que cria uma realidade paralela, na qual o colapso climático vira coisa de comunista...
Então, é importante que se diga: o ser humano é o principal responsável por essa situação, não vamos jogar a culpa no El Niño!
Ter um “futuro habitável” está igualmente em mãos humanas: desde reconhecer que “árvore é vida”, por meio – dentre outras – da preservação das florestas e rios, do manejo florestal, reflorestamento e agricultura de baixo carbono; transformações no âmbito do setor de energia, a partir do uso de fontes de energia limpa, como energia eólica, solar e hidrelétrica; políticas públicas – defendidas por parlamentares “terrivelmente” comprometidos com o meio ambiente – que preservem a biodiversidade, demarquem e zelem pelas áreas protegidas.
Ainda que haja tempo para reverter essa situação, enquanto “mundo” estamos sim falhando nessa luta: seja pelos acordos internacionais sobre o clima que não se concretizam plenamente, seja pela ausente ou simbólica colaboração entre países ricos junto aos países pobres.
Esse calorão todo – tema de quase qualquer rodinha de conversa – que volte a estar presente lá nas marchinhas de Carnaval; na estação que lhe é típico: o verão – mas com moderação; e ainda como calor humano, que agrupa pessoas em algo que parece ser bom, não desse modo...
“Alah la ô ô ô ô ô... Mas que calor ô ô ô ô...” – pena que não é marchinha e nem é Carnaval. Que calor é esse?

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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