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Olhar Social

Quando chega a despedida!

No Epitáfio da banda paulista Titãs, a letra dos roqueiros de 2001 cantava “[...] Devia ter complicado menos; Trabalhado menos; Ter visto o sol se pôr; Devia ter me importado menos; Com problemas pequenos; Ter morrido de amor [...]” e assim parece ser quando, inesperadamente, nos despedimos para sempre de alguém... 
A sensação de incompletude prevalece nessas horas, porque parece que algo a mais deveria ter sido feito e não o foi...    
Mesmo porque essas despedidas quase sempre chegam sem avisar. Elas não deixam recado. Não agendam hora e nem avisam ou dão pistas de quando chegarão...
Talvez seja assim para nos ensinar que cada minuto é valioso, cada olhar é único e cada abraço importa; que as palavras ditas – ou deixadas de dizer – podem não encontrar outra oportunidade de serem faladas. Não há depois, não há futuro, porque o futuro é único e agora. No exato momento daquele encontro de almas, que neste plano estão juntas.
A triste despedida de um ente amado, muito amado, dói na alma, como se a alma quisesse sair do corpo e tentasse com toda sua força – força que só o amor entende – pedir clemência para ficar junto desse alguém um pouco mais...
Não há consolo e nem há lágrimas que se esgotam em cada lembrança que se recorda, porque a ausência ocupa muito espaço. Espaço que não há como preencher, porque cada pessoa é única e insubstituível...
No último dia doze de fevereiro, a lua estava cheia, linda, grande, parecendo uma bola de fogo, que iluminava o luar e preenchia os olhos. Sua luz radiante clareava a escuridão da noite, que ficou sem cor com a sua partida.
A partida do meu pai, tão inesperada como quase sempre são esses momentos, pintou o luar de cinza, tirou dele sua cor e sua beleza, desnudou as estrelas, apagou o brilho de uma noite imponente, que parecia desmoronar com as lágrimas que rolavam sem moderação, capaz de encher um oceano. 
Parece ser tão injusto alguém que ama a vida e ama viver ir embora de forma tão abrupta. Os mistérios e desígnios desse mundo parecem não ser compreensíveis aos olhos da razão. Não houve um até logo, nem um adeus... Como quem vai ao quintal apanhar umas ervas e não volta mais, porque se foi para sempre. 
Os dias não serão mais os mesmos, nunca mais, sem sua presença. A alegria deu lugar à tristeza. O riso se fechou e sem graça se recolheu. A saudade ocupa todos os espaços, mesmo sem ser convidada e me acompanha aonde quer que eu vá. Os pensamentos voam longe, desatinados e delirantes, talvez tentando encontrá-lo em mim mesma ou buscando compreender o sentido da vida.
Vida tão intensa, intensificada e subtraída de cada um de nós, que não nos permite vivê-la em sua plenitude ou ao menos de modo digno, junto de quem amamos e só quando chega a despedida é que olhamos pra ela... 
“Devia...”, como dizem os titãs, porque os dias passam, o tempo voa e a vida diz adeus! Vá em paz, logo, logo a gente se encontra pra bater papo e contar piada...
* Texto em homenagem e agradecimento ao meu pai – José Roberto Bovolenta – que nos deixou no último dia 12 de fevereiro. 

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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