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Educação

Professores: eis o último sinal do ano

Após dois anos atípicos, este 2022 foi o primeiro em estado de pandemia em que as aulas nas escolas básicas retomaram a presencialidade integralmente. Além dos desafios “clássicos” da profissão, professoras e professores vêm notando novas problemáticas que põem em xeque tanto sua atuação quanto a qualidade da aprendizagem dos alunos no espaço escolar.

O que se observa e corre nas conversas e notícias são, primeiramente, uma grande defasagem em conhecimentos, porque a maioria dos alunos não conseguiram efetivar uma rotina de estudos durante o período do isolamento social e os pais, frequentemente, não sabiam como resolver questões pedagógicas e didáticas. Talvez isso já forneça uma pista sobre a incapacidade do homeschooling. Outro ponto é que houve uma intensificação da indisciplina e falta de postura no espaço escolar. Dificuldades conceituais e cognitivas fazem parte da rotina dos escolares, contudo, o que se viu neste ano letivo foi a incapacidade de responder a simples chamada, a dificuldade de fazer silêncio durante as avaliações, a agitação para minutos de pensamento, a falta de respeito pelos funcionários da escola e a comichão de usar o celular o tempo todo.

Esses “frutos”, após um longo período sem a socialização escolar, já vinham se desenvolvendo décadas anteriores. Além disso, conhecemos várias notícias sobre agressões em escolas, descasos e desvios de verbas. A desvalorização da educação reflete nos professores e, consequentemente, cicatriza também nos alunos, pois gera uma cultura negativa nos espaços formais de aprendizado.

Como professor, acredito que a maioria dos meus colegas sabem como abordar os conteúdos de uma maneira prática e atraente e que faça sentido na vida do aluno, todavia não temos motivações que nos ajudem a ser como realmente gostaríamos na docência. Também viemos de uma cultura escolar já gasta e deplorável.

Essa situação inóspita produz resultados: a carreira de professor se torna menos atraente e a juventude a procura cada vez menos nos cursos presenciais nas universidades, embora as licenciaturas a distância estejam em alta. Se não bastasse isso, a iniciativa privada teima em demitir vários professores a seu bel-prazer, e as secretarias públicas de educação hesitam em realizar concursos para contratação. O último, no âmbito da secretaria de Estado de São Paulo, foi em 2014. Conforme estimativa publicada no Diário de Pernambuco (30 de setembro de 2022), haverá uma falta de cerca 235 mil professores até o ano de 2040 no Brasil inteiro. Dessa forma, vivemos a beira de um colapso educacional, em um ramo de trabalho em que, a cada nova reforma, surgem mais exigências. Espera-se que os professores realizem mediações, metodologias ativas e que façam os alunos se tornarem cada vez mais autônomos. Isso tudo em um tempo reduzido que lhes resta mediante a grande quantidade de aulas e escolas em que vários professores se desdobram e com cada vez menos direitos trabalhistas.

Estão paulatinamente empurrando conteúdos, afazeres, habilidades, competências e expectativas aos docentes e discentes. O tempo pessoal escorre pelo ralo. Quem promove isso? Burocratas que ocupam as decisões educacionais, no âmbito municipal, estadual e federal. Tais procedimentos entoam um discurso de eficiência, exigências irreais em um tempo de tensões comparadas às guerras. Não consideram a situação concreta. Estamos à beira de um naufrágio.

O papel de um educador honesto e ético, no que concerne à realidade, é primeiramente ponderar o terreno que pisa. Por exemplo: quando um educador planeja as aulas e sua atuação, em tecnologias na educação e em cobranças que requerem dele, este corre o risco de generalizar e até mesmo, inconscientemente, achar que os alunos, por portarem celulares, já estão “letrados” digitalmente. A realidade é que existem, usando uma categoria do geógrafo Milton Santos, um “espaço luminoso” e um “espaço opaco, escuro”. Existem regiões no Brasil que não possuem sinal de celular e acesso à banda larga, escolas que não dispõem de computadores e projetores, nem sequer o mínimo de tecnologia. Os resultados ainda são inconclusivos, mas temos como hipóteses que demoraremos anos para voltar ao estágio de aprendizagem anterior ao das paralisações escolares em decorrência da pandemia.

Enfim, nos planejamentos o professor deve pensar na realidade que está inserido, e buscar ações concretas, pois não adianta ensinar seu aluno sobre Inteligência Artificial, Internet das Coisas, 5G e outros inúmeros assuntos, se nas “primeiras letras” ele possui dificuldades. Eis os últimos sinais deste ano de 2022. Esse “chão de sala” é o campo de atuação para 2023. Tal “campo” conduz a sociedade como um todo à luta por reivindicações, autoformação continuada e a não nos calar em promover e construir uma educação que efetivamente seja transformadora, coligada com todas as esferas da população. Concluo com a advertência que o pedagogo suíço Philippe Perrenoud faz no livro Dez Competências para Ensinar: “A escola tem dificuldades para atingir seus objetivos atuais, mesmo os mais fundamentais, como o domínio da leitura e do raciocínio. Antes de carregar insidiosamente o navio, seria prudente indagar se ele já não está acima da capacidade de flutuação.”

Thiago Oliveira Gonçalves, graduado em Ciências Humanas pela Fasesp e professor da rede estadual de ensino. Contato, Instagram e Twitter: @thiago_oligon

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