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Olhar Social

Precisamos ser imprescindíveis

Uma das estatísticas que parece passar quase despercebida em nosso cotidiano refere-se ao Brasil ser um dos países que mais mata – ou não protege – ambientalistas e indigenistas, realidade que nos coloca em quarto lugar no mundo, segundo dados da ONG “Global Witness” de 2021.

Antes dos 1500, “todo dia era dia de índio”, como canta Baby do Brasil. Hoje, o extermínio tão silencioso quanto cruel pode levar a uma possível extinção dos povos originários. Povos esses protetores e defensores da natureza, como a Amazônia – maior floresta tropical do planeta – onde constroem uma relação de convivência, que lhes permitem senti-la; ver sua alma; entender suas dores e necessidades. Um olhar de respeito, zelo e gratidão, da qual se extrai apenas o que é necessário para subsistência. Cultura que parece estar tão longe do nosso alcance.

Floresta de riqueza imensurável, por sua biodiversidade de espécies e sobrevivência da vida humana, cujas preciosidades são geradoras da cobiça daqueles que a enxergam como um negócio a ser explorado no âmbito da lógica de mercado, sendo algo “sustentável” ou criminoso e clandestino, em especial referente ao garimpo, pesca e caça ilegais.

O desaparecimento do indigenista e trabalhador licenciado da Funai (Fundação Nacional do Índio), Bruno Pereira, exonerado de seu cargo de coordenador do órgão em 2019, após liderar uma operação contra o garimpo ilegal na região; e do jornalista e escritor inglês, Dom Phillips, colaborador do jornal britânico independente The Guardian, no Vale do Javari (AM), denunciam a gravidade do problema.

O esvaziamento (ou ausência) das ações de proteção da Funai nos últimos anos vão ao encontro dos conflitos e exploração desenfreada na terra indígena, demarcada em 2001, além de possível coalização de rota para o tráfico internacional de drogas, armas e pessoas, especialmente por se tratar de área de fronteira.

Gravidade que parece sem limites, mas se acentua ainda mais ao ouvir a declaração do chefe do executivo federal tratando o trabalho de defesa e proteção desses profissionais como “uma aventura”!

A ausência do Estado e sua (atual) fragilidade de proteção têm evidenciado episódios dramáticos, como o ocorrido em maio deste ano na terra indígena Yanomami, onde uma menina de 12 anos foi sequestrada, estuprada e morta, e a aldeia toda queimada, havendo ainda ameaças contra quem denunciasse o crime. Fora tantos outros episódios que parecem constar nos grandes meios de comunicação em notas de rodapés!

O conflito, de fato, em torno de terras indígenas nunca deixou de existir e a plena e total demarcação, como reza a Constituição Federal de 1988, nunca se efetivou por completo. Mas ao longo do atual governo, tem ganhado proporções exponenciais, sobretudo pelo apreço e adesão que o atual presidente tem em explorar essas terras e sua defesa – sempre verdadeiras – de não adesão à demarcação de terras indígenas. Ou como escreveu recentemente Eliane Brum “não é incompetência, nem descaso: é método”.

Fato é que estamos vivendo uma verdadeira “guerra climática”. Estamos matando a floresta, suas espécies, seus povos e seus defensores, o que pode levar a Amazônia em pouco tempo a um chamado “ponto de não retorno”, conforme explicam alguns cientistas, em que não haverá mais possibilidades de controlar o superaquecimento global. Será que iremos sobreviver a isso? A depender também de nossas escolhas nas urnas deste ano, podermos também caminhar a um “ponto de não retorno” em nosso país, em que nossas perdas e danos serão irreversíveis.

A sabedoria indígena nos diz que “somente quando for cortada a última árvore, pescado o último peixe, poluído o último rio, que as pessoas vão perceber que não podem comer dinheiro”. Ainda há tempo de mudarmos essa rota, a começar pelas eleições que se aproximam. Nossos representantes precisam estar terrivelmente comprometidos com a defesa da vida, da preservação da natureza, do cuidado e proteção com os povos originários, ribeirinhos, camponeses, quilombolas.

Cada um e cada uma de nós é responsável e protagonista nessa luta, ou como diria Bertolt Brecht – escritor e poeta do século XX – “há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis”. Precisamos ser imprescindíveis!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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