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Olhar Social

Por que há pobres num país tão rico como o Brasil?

Eu não luto para ganhar, eu luto para ser fiel”. Com palavras fortes e contundentes, o Padre Júlio Lancelotti – pároco na Paróquia São Miguel Arcanjo na Arquidiocese de São Paulo – sempre foi leal às suas convicções: a defesa intransigente dos direitos humanos, a luta junto aos mais pobres e vulneráveis e ao Evangelho, que rege o ordenamento de sua Igreja, guiado pelo amor, caridade e amparo dos que sofrem.

Ser de luz – não restrito em sua crença, em especial pelo respeito que tece por todos os credos ou mesmo por sua ausência – capaz de mover céus e terras contra uma injustiça; de não se calar numa sociedade que alimenta tantas formas de violência, ódio e preconceito; e protagonista na construção de uma sociedade mais justa e igualitária, o que é mais que suficiente para despertar a ira de quem naturaliza a pobreza, não reconhece a opressão do sistema capitalista e prega discursos de ódio, intolerância ou amparados na meritocracia, individualismo e egoísmo.        

Ira materializada no “circo” montado pelo vereador Rubinho Nunes (União Brasil) na Câmara dos Vereadores de São Paulo, ao colocá-lo como alvo de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), sob o pretenso discurso de investigar seu trabalho na Cracolândia e nas Organizações da Sociedade Civil, onde atua.

A cortina de fumaça criada pelo parlamentar parece ocultar a disputa política por traz da proposta, ainda mais por se tratar de ano eleitoral em que cada voto será disputado, sobretudo junto à extrema-direita. O Padre, atual Vigário Episcopal para a Pastoral do povo da rua, – bem com as instituições onde atua e as ações que realiza, em especial com a população em situação de rua – não recebe nenhum recurso público. Tudo é mantido por meio de doações, trabalhos voluntários e recursos da própria Igreja. Soma-se a isso que, atrapalhar o sentido do seu sacerdócio – a luta pelos mais pobres e pelo povo de rua – vai ao encontro de muitos interesses, já que o Padre Júlio incomoda muita gente, em especial àqueles ligados a especulação imobiliária numa grande metrópole e àqueles que odeiam os pobres. E ele sabe disso: “Quando você está do lado dos indesejáveis, você é indesejável também!”.

Tão indesejável que os ataques que sofre se estendem a outras formas de manifestação. Pelas redes sociais, há inúmeras agressões ao Padre, circulação de fake news e até mesmo deepfake, que utiliza de inteligência artificial para dar vida e voz a rostos de pessoas – realidade que alimenta o debate em torno da regulação do universo cibernético no país. A internet não pode ser “uma terra sem lei”, onde pessoas se ocultam atrás de seus perfis para a prática de crimes!

No olho do furacão, a Arquidiocese de São Paulo, em recém-manifestação, também diz que irá investigar o Padre, a fim de dar transparência aos fatos. Ora, as ações do Padre sempre se deram as claras e o que se vê, de fato, é o jogo político no interior na própria Igreja, até porque tratam-se de denúncias requentadas, as quais ele já foi absolvido!

Mas, sereno e fiel, o Padre segue sua luta...

Luta árdua, invencível e interminável numa sociedade, como a brasileira, estruturada em pilares que seguem alimentando desigualdades de renda, raça e de gênero; que carrega e arrasta tantas necessidades sociais; na qual práticas e discursos de ódio têm ascendido a cada dia, inclusive com viés religioso...

Dom Helder Câmara – arcebispo emérito de Olinda e Recife – disse certa vez: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista”. Como se vê, não cabe questionamentos!

Mas por que há pobres num país tão rico como o Brasil?... Vamos seguir questionando sim!

Assim como dizer que estamos do lado do Padre Júlio e que sua luta também é nossa luta; luta que sirva de inspiração na doação aos pobres e construção de um mundo melhor, sobretudo num contexto em que cristãos – e não cristãos – estão mais preocupados em ostentar; que sua voz permaneça sendo o horizonte de tantas lutas necessárias nesse país; seu abraço siga acolhendo e confortando o coração despedaçado de quem sofre; e seu olhar – ah seu olhar! – permaneça irradiando o amor infinito e incondicional, algo que só é possível a quem segue o Evangelho que prega!     

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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