É triste e revoltante ler que Manaus, minha terra natal, bateu mais um recorde de sepultamentos. E que os hospitais, saturados e sem equipamentos, não têm mais sequer oxigênio para oferecer uma mínima esperança de sobrevida aos pacientes. Um genocídio, enfim, perpetrado por um vírus, sim, mas não sem o auxílio de meliantes bem mais perigosos: os politiqueiros.
Culpar políticos pode ser um clichê, mas, no caso da pandemia, também uma questão de “dar nome aos bois”: de apontar o dedo para os maiores culpados por todo esse caos. E a parcela de culpa da população? – contra-argumentarão ainda os costumazes defensores dos patifes a quem chamamos de “representantes do povo”. Ora, responderei, parem com o cinismo, pois o exemplo vem do topo: se a população preferiu aglomerar-se e recusou-se a usar máscaras foi porque teve licença para assim se comportar – uma licença concedida por um presidente irresponsável, que chegou a rotular de “gripezinha” uma doença que já começava, então, a encher cemitérios na Europa e nos Estados Unidos.
E não só foi o lunático presidente brasileiro, o Sr. Jair Bolsonaro (prometi dar nome aos bois). Governadores e representantes do Congresso Nacional, para não contrariar empresários, recusaram-se a impor medidas mais severas de isolamento, preferindo fechar caixões a ter de fechar o comércio. Resultado: a segunda onda, como muitos cientistas e profissionais da saúde já estavam avisando, veio mais letal que a primeira.
Isso tudo sem falar nos tradicionais desvios de verbas públicas, que matam programas sociais, deixando escolas e hospitais à míngua. De modo que, numa situação de emergência, como a que agora vivenciamos, ao povo só resta orar por uma intervenção divina.
E, se pensam que a politicagem tem sido letal apenas no Brasil, enganam-se. O Japão, por exemplo, também tem sofrido o impacto das péssimas decisões de seus políticos. Há alguns meses, escrevi a respeito das trapalhadas do agora ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, que, ainda no início da pandemia, achou que tudo se resolveria com o governo doando “duas máscaras” para cada família. E, não muito tempo após essa proposta vergonhosa, quando o número de casos em todo o Japão começava a diminuir (não pelas duas máscaras, vale frisar, mas porque o povo japonês protegeu-se ao máximo), o gabinete do Sr. Abe veio com a ideia de incentivar as viagens dentro do país, por meio de uma campanha conhecida como “Go to Travel”. E o resultado já sabemos: Tóquio e adjacências vendo aumentar de modo acelerado, neste início de 2021, o número de infectados – tudo para alimentar os lucros dos grandes empresários do turismo.
Felizmente, o Sr. Abe caiu. Mas o problema é que o seu sucessor, do mesmo partido, o Sr. Yoshihide Suga, também não vai muito bem das pernas (ou da cabeça), insistindo na realização dos Jogos Olímpicos – um evento a que, por motivos óbvios, opõe-se hoje a maior parte da população japonesa.
E é assim que, seja no Brasil ou no Japão, a politicagem vai atirando o povo às covas, cavadas pelas pás da irresponsabilidade e da corrupção. Até quando, pergunto-me, permaneceremos nas mãos desses genocidas fantasiados de “servidores do povo”?
Parem de nos asfixiar!
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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