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SUB-VERSÃO

Poesia na plataforma

“Mande notícias do mundo de lá, diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar, tô chegando
Coisa que gosto é poder partir sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar quando quero”.
(Encontros e despedidas – Milton Nascimento)

“Eu perdi meu amor”, disse o senhor com os olhos marejados e a voz embargada pelo desespero que a realidade dessa constatação assim tão repentina sugeria.

“Eu perdi meu amor”, foi a frase dita por aquele senhor de quem não sei ao menos o nome. E essa frase foi o suficiente para parar o tempo por um instante, foi o suficiente para encher o ar de poesia.

Essa frase fora dita numa estação de trem, assim que desembarcamos, na encantadora cidade de São Lourenço, Minas Gerais.

Minas sempre foi para mim sinônimo de poesia, mas essa frase dita assim com tanta emoção fez com que essa poesia mineira ganhasse uma dimensão ainda maior.

O senhor autor da frase havia se perdido de sua esposa, quando da descida dos vagões. Havia muita gente fazendo o famoso passeio de trem, afinal, era véspera de feriado. E eu consigo entender o desespero que deve ter tomado conta dele, ao notar que havia se perdido de sua amada.

Amor não é coisa que se perca jamais. Seja ele novo, antigo, pouco ou muito. Aliás, amor mesmo nunca é pouco. Amor é transbordar, feito as lágrimas daquele senhor que insistiam em encher-lhe a vista.

Amor é o suficiente para mover-nos no desejo de encontrar uma e algumas outras vezes mais o objeto de nossa afeição, seja numa plataforma de trem, numa cidade das Gerias ou na plataforma da vida, sempre repleta de chegadas e despedidas, como já bem nos alertou Bituca.

“Eu perdi meu amor”. Essa frase vai sempre soar solene em minha memória, como já foi em meus ouvidos. E eu realmente espero, aliás, tenho certeza de que aquele adorável senhor o reencontrou.

Bastava que esperasse um pouquinho, atento aos transeuntes, e certamente, logo seus olhos, um tanto cansados das agruras da vida, e marejados pela ausência de seu amor, avistariam sua amada companheira.

Bastou um segundo, e Minas me surpreendeu com essa poesia em forma de gente, com essa declaração, ao mesmo tempo em que assustada, repleta de afeição.

Bastou um tempinho, que pode parecer uma eternidade para os amantes, para que aquele senhor a reencontrasse. E quase que posso vê-los agora no reencontro na plataforma, estão ambos no auge de sua juventude. Ele a espera com flores, flores essas que ela também traz na estampa do vestido rodado. A fluidez do tecido lembra a fluidez da vida. O abraço apertado dos dois é o próprio Deus trazendo-os à vida novamente, ao reuni-los.

E dançam e sorriem! Os olhos outrora marejados estão agora refletindo um sorriso que não lhe sai da boca. Sua boca junto à dela. Estão seguros enfim.

Ele achou seu amor que pensava estar perdido, que esteve perdido por alguns breves instantes. A vida é um instante, apenas chegar e o deixar na plataforma. O amor é o que permite que seja esse instante eterno.

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